A cidade já estava acesa quando Matteo chegou em casa.
Milão brilhava do lado de fora como sempre — prédios antigos misturados com luzes modernas, carros passando sem parar — mas ele mal reparou. Tirou o paletó com cuidado, como se o mundo lá fora pudesse esperar, e seguiu o som baixo que vinha da sala.
Giulia estava na janela, descalça, enrolada no suéter dele. Observava a chuva fina cair sobre a cidade, distraída, como se estivesse em outro lugar.
— Você chegou cedo hoje — ela disse, sem se virar.
Matteo sorriu. Com ela, sempre sorria.
— Eu corro quando sei pra onde quero voltar.
Ele se aproximou por trás, passou os braços ao redor da cintura dela e apoiou o queixo em seu ombro. Giulia encaixou naturalmente, como se aquele abraço fosse o lugar mais óbvio do mundo.
— O que você tá pensando? — ele perguntou.
— Que essa cidade nunca dorme — respondeu. — É tanta luz que parece exagero.
Matteo inclinou a cabeça, observando o reflexo deles no vidro.
— Mesmo assim… — disse baixo — tudo isso ainda parece pouco.
Giulia riu, virando o rosto pra ele.
— Pouco pra quê?
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, delicado demais para alguém que o mundo chamava de perigoso.
— Pra explicar o que eu sinto quando você tá aqui.
Ela fez aquele sorriso pequeno, tímido, que só aparecia quando era pega de surpresa.
— Você fala como se eu fosse algo impossível. — Você é — ele respondeu sem hesitar. — E ainda assim escolheu ficar comigo.
Giulia encostou a testa na dele.
— Às vezes eu esqueço quem você é lá fora. — Lá fora eu resolvo coisas — Matteo disse. — Aqui dentro… eu descanso.
Ela fechou os olhos por um instante.
— E se um dia eu duvidar? — perguntou. — Se achar que isso tudo é grande demais?
Matteo beijou a ponta do nariz dela, depois a bochecha, sem pressa.
— Então eu repito. Quantas vezes for preciso. — Repetir o quê? — Que não existe nada nesse mundo que eu não faria pra te ver sorrir desse jeito.
A chuva começou a engrossar lá fora. Giulia puxou-o pela mão.
— Vem ver.
Eles ficaram lado a lado na janela, observando as gotas escorrerem pelo vidro.
— Cada gota parece um pedido — ela comentou. — Não — ele corrigiu, passando o polegar pela mão dela. — É uma promessa.
Ela virou-se para ele, olhos brilhando.
— Você assusta quando fala assim. — Só porque eu falo sério. Até sobre amor.
Giulia riu, abraçando-o com força.
— Ainda bem.
Matteo fechou os olhos, respirando o cheiro dela, como se o mundo inteiro coubesse naquele momento simples: chuva, luzes, janela, amor.
Se alguém perguntasse quem mandava naquela cidade, muitos diriam o nome dele.
Mas ali, naquele apartamento iluminado, Matteo sabia a verdade:
o coração dele já tinha dona há muito tempo — e ele nunca quis recuperar o controle.