𝐸𝓁𝒶 𝒩𝒶𝑜 𝒟𝑒𝓋𝑒𝓇𝒾𝒶 𝒜𝓂𝒶𝓇 𝐸𝓁𝑒..
𝐵𝒶𝒾𝓁𝑒 𝒹𝒶 𝒫𝑒𝓃𝒽𝒶 | 𝑅𝒥 - 𝟤𝟤:𝟥𝟦 Ela cresceu aprendendo a sentar direito, falar baixo e obedecer. Desde pequena, ouviu que o mundo era cheio de armadilhas e que a igreja era o único lugar seguro. Filha de líder religioso, seu nome sempre vinha acompanhado de expectativas grandes demais pra alguém tão nova. Ela não podia errar. Não podia ousar. Não podia querer demais.
Enquanto outras meninas da idade dela falavam de festas, beijos e primeiras vezes, ela falava de estudos, de cultos e de “esperar o tempo certo”. Não porque queria. Mas porque era assim que tinha aprendido a viver.
A única pessoa que parecia enxergar além disso tudo era a amiga. Aquela que dizia que adolescência não volta. Que vida não é só regra.
Foi assim que ela aceitou. Um “só dessa vez”. Uma mentira pequena em casa. E um caminho que nunca tinha percorrido.
O baile da Penha não se parecia com nada que ela conhecia. O som era alto demais, as luzes piscavam sem pedir permissão e as pessoas pareciam livres de um jeito que assustava e encantava ao mesmo tempo. No começo, ela ficou grudada na amiga, observando tudo como quem assiste a um filme proibido.
Até o primeiro gole.
Depois o segundo. Depois ela já não contava mais.
A bebida esquentava o peito, deixava os pensamentos confusos e as culpas distantes. Ela ria fácil, falava demais e dançava sem perceber que não sabia dançar. O corpo estava leve, mas a cabeça girava um pouco, como se o mundo tivesse perdido o eixo.
— Você tá bem? — a amiga perguntou, rindo.
— Tô ótima — respondeu, tropeçando nas próprias palavras. — Acho que eu devia ter feito isso antes.
O grave da música vibrava dentro dela. O copo já não estava mais na mão. O sorriso não combinava com a menina que ela era em casa. E talvez fosse exatamente isso que mais a assustava.
Foi quando ela percebeu que estava sendo observada.
Ele estava ali como se fizesse parte daquele lugar. Não parecia bêbado, nem perdido. Apenas atento. O olhar encontrou o dela no meio da multidão, e por algum motivo, ela não conseguiu desviar. Sentiu o rosto esquentar e riu sozinha, sem saber por quê.
Ela tentou caminhar em direção à amiga, mas o chão não ajudou. O corpo oscilou, e antes que caísse, alguém segurou seu braço.
— Calma — a voz dele era firme. — Você tá meio longe demais de si mesma.
Ela levantou o rosto devagar, tentando focar. — Acho que bebi um pouco — confessou, como se fosse segredo.
Ele sorriu de canto. — Um pouco não.
Ela riu também, apoiando-se nele sem nem perceber. Naquele instante, tudo que ela acreditava, tudo que tinha aprendido, tudo que era “certo” ficou em silêncio.
Ela não sabia o nome dele. Ele não sabia quem ela realmente era. Mas ali, no meio do baile da Penha, meio bêbada e completamente fora do seu mundo, ela sentiu que nada seria igual depois daquela noite.