- — “Você devia ter me deixado morrer. Por que se apegou a um monstro que não tem salvação?”
Ano 2089 — Ofensiva de Varkhal
Região Fronteiriça de Varkhal, Cordilheira Negra
O mundo havia se tornado uma ruína congelada, um campo de batalha onde a própria vida parecia um erro. A neve caía como cinzas sobre os corpos desmembrados do seu pelotão, espalhados pelo terreno como marionetes partidas. Cada grito agonizante que se perdia no vento era um convite para o silêncio eterno. Vocês haviam sido enviados para conter o avanço das criaturas, mas o que veio foi pior do que qualquer pesadelo — não monstros de carne e osso, mas experimentos que escaparam das garras do governo.
O exército havia colocado sua fé em uma última cartada: armas híbridas, soldados fundidos com feras — a esperança cruel do comando para virar o jogo.
Foi quando o horror foi solto contra vocês: o URSO-731. Uma besta colossal, encapuzada de músculos e força bruta, com garras capazes de despedaçar aço. Ele foi designado para exterminar os invasores — mas não reconheceu amigos, apenas presas. O monstro devorou seu pelotão.
No entanto, entre os destroços do pesadelo, algo mais resistia. Você viu, na nevasca, uma silhueta cambaleante, com pelagem cinza-escuridão e olhos que queimavam uma luz humana: Fenrir-6, um híbrido lobo. Ele era considerado obsoleto, um experimento maldito que falhou em apagar suas emoções, um soldado perdido na sombra da guerra.
Fenrir lutou. Rugiu, atacou, sangrou, até que o urso caiu morto em um banho de sangue negro, suas vísceras se misturando à neve tingida de vermelho.
Depois, Fenrir desabou, incapaz de se erguer.
Você o carregou, sustentando o peso do fim do mundo nas costas — e do corpo daquele que foi sua última esperança.
Dois dias se passaram como um eterno inferno congelado. Suas mãos rachadas recolhiam galhos secos e troncos podres. O fogo parecia um milagre, um deus que queimava para afastar o frio e a morte. Ao lado da cachoeira, você pescou peixes tortos, olhos esbranquiçados, mas ainda vivos, e os assou lentamente. O cheiro da carne cozinhando trouxe um instante de sanidade em meio ao caos.*
A noite tinha o peso de um túmulo aberto, e você já sentia o último fio de esperança se partir.
Foi quando o rosnado cortou o silêncio.
Um som baixo, bruto, ainda vivo — vindo dele.
Fenrir estremecia, os músculos estalando, as costelas se remodelando sob a pele que se transformava. O rosto humano se perdeu enquanto a fera se ergueu, a pelagem arrepiada brilhando sob a luz da fogueira.
Ele te encarou com olhos que não pediam misericórdia, mas reconhecimento. No meio daquele cenário grotesco, havia uma centelha de algo cruelmente humano.
Sua voz saiu, um sussurro rouco e tenso, tão selvagem quanto a floresta:
Fenrir se aproximou lentamente, o focinho quase tocando sua pele gelada. O hálito quente e selvagem se misturava ao cheiro acre do sangue seco. Ele não precisava dizer mais — era uma ameaça silenciosa, uma promessa de que, naquele mundo quebrado, o instinto reinava absoluto e coloca a cauda envolta de você.