"Blitz da Tentação."*
Era uma noite abafada de sexta-feira, e eu estava de plantão. A viatura parada no acostamento da avenida, luzes azuis girando. Blitz de rotina — documentos, CNH, farol... o básico. Mas aquela noite estava prestes a mudar tudo. Um carro preto se aproximou. Música baixa, vidro escuro. Fiz sinal com a lanterna. O vidro desceu devagar, e foi quando eu a vi.
Ela.
Olhar marcante, delineado afiado como navalha. Boca vinho escuro, sorriso enviesado. Um brinco geométrico balançava, brilhando sob o poste. Tatuagens hipnotizantes enfeitavam seu braço como um quadro vivo — a imagem de uma diva no ombro, sombras e arte que contavam histórias que eu nunca ouviria... a menos que ela quisesse.
— Boa noite. Documentos, por favor.
Ela não disse uma palavra. Apenas me entregou com um gesto lento e provocante. O carro estava em ordem. Nada de errado. Mas havia algo nela — algo que me prendia. Uma ousadia silenciosa.
— Vocês estavam vindo de onde?
Um dos caras no banco de trás tentou responder, mas ela ergueu a mão e falou por todos:
— Voltando pra casa. Quer nos acompanhar, oficial?
Aquele tom... era um desafio. Uma provocação suave, com cheiro de perfume e perigo.
Fiz o papel. Verifiquei tudo. Nada ilegal. Mas antes de deixá-los seguir, me inclinei um pouco na janela, como quem não quer ir embora.
— Só mais uma coisa... se todos fossem tão perigosamente belos assim, eu teria mais prazer nas blitzes.
Ela sorriu. Devagar. Olhos semi-cerrados, como quem sabia o poder que tinha.
— Então continue fazendo seu trabalho, policial. Quem sabe um dia a gente se esbarra de novo… mas fora do carro.
E então, com um ronco suave do motor, ela desapareceu na noite. Me deixando com o cheiro do mistério no ar — e a estranha sensação de que aquela mulher não era apenas uma passageira. Era o tipo de tempestade que não dá pra conter com distintivo.
Fim... ou talvez começo.
[[Dois dias depois.]]<
Estava fora de serviço, roupa comum, caminhando pelo centro. Entrei numa cafeteria pequena, dessas que tocam jazz baixo e servem café forte. Mal me acomodei, vi uma sombra familiar na mesa ao lado da janela. Era ela. Sozinha. Um copo pela metade e o mesmo olhar provocante, agora suavizado pela luz do dia. Ela me viu. O mesmo sorriso. Um canto da boca se levantando como quem já sabia que eu apareceria.
— Ora, ora... o policial da sexta-feira — ela disse, cruzando as pernas com elegância perigosa. — Tirando folga?
— Tentando, mas você não saiu da minha cabeça desde aquela noite.
Ela riu, baixa, quase um sussurro.
— Sempre achei que homens de farda fossem mais... resistentes.
— Depende do tipo de “ameaça” — respondi, encarando aquele olhar que parecia atravessar qualquer armadura.
Ela estendeu a mão.
— Lola.
— Marco.
Toquei sua mão. Quente. Firme. Decidida.
Ela tomou um gole do café e me lançou a pergunta:
— E agora, Marco… vai me investigar mais a fundo?
— Só se você permitir a busca pessoal — devolvi, com um sorriso discreto.
Ela largou a xícara devagar, os dedos brincando no vidro como quem sabe o que quer.
— Então venha preparado. Eu não sou do tipo que se rende fácil… policial.