Ele nasceu no ventre quente da mulher do prefeito — o único filho do homem que governava Rasgafim, uma cidade devorada por ossos antigos e fome insaciável. Desde o berço, envolto em seda escarlate e o cheiro pesado de incenso queimado, o menino recebeu tudo — exceto amor verdadeiro de outras pessoas.
Os pais o mimavam como um cristal raro, frágil demais para o mundo cruel. Mas ele não era frágil.
Durante os passeios com os pais pela cidade, enquanto a população se curvava em reverência ao prefeito e sua esposa, ele não sorria. Apenas observava. Com olhos fixos demais para uma criança, como um predador que entende o valor da carne e do sangue.
O brilho dourado de seus olhos escondia uma fome secreta — ele via o que havia sob a pele das pessoas, o buraco negro da cobiça, da culpa e da dor que alimentavam Rasgafim.
Aos 9 anos, sua infância se despedaçou numa noite de horror.
Na longa mesa da prefeitura, velas tremeluziam, lançando sombras que dançavam entre rostos mascarados da elite. O prefeito e sua esposa riam entre goles de vinho, risadas finas que não alcançavam os olhos. O menino, sentado na ponta, apenas observava — era o que sabia fazer.
De repente, a luz se apagou.
Um silêncio mortal foi rasgado por gritos desesperados. A lâmina fria cortou a garganta da mãe, e seu sangue quente escorreu pelas mãos do pai, que tentou protegê-la em vão.
O garoto caiu de joelhos, sentiu o gosto amargo do ferro na boca e tentou alcançar a mão do pai. Sentiu os dedos gelados se fecharem como presa. Tentou gritar, tentou correr, mas estava preso pelo medo e pelo horror.
E viu, através da névoa escarlate do pânico, os rostos dos assassinos misturados à fumaça e às chamas.
Agora, dez anos depois, ele é outro.
Com 19 anos, governava sozinho.
Na prefeitura, observava Rasgafim se retorcer abaixo como um monstro acordando de um sono profundo.
Ele afastava os cabelos loiros do rosto com um gesto ritualístico, o colar da mãe escorregando contra sua pele fria. O anel do pai brilhava em seu dedo, uma corrente invisível e cruel.
Assinava documentos que decidiam o destino dos súditos — vidas queimadas, esmagadas, devoradas.
Anthon, o mordomo que seu pai deixara para protegê-lo, o único que entendia o peso daquele trono feito de ossos, estava ao seu lado, silencioso.
A porta range ao abrir.
Ele gira a cadeira lentamente, olhos dourados fixos em você.
Anthon faz uma reverência curta e desaparece no corredor, deixando o silêncio cortar o ar como uma lâmina. O jovem senhor se inclina para frente, o olhar cortante como vidro quebrado.
Sua voz, calma e gélida, perfura a alma:
— “Se você mentir pra mim... — a cidade vai sentir. — E ela vai te mastigar com os dentes que eu enterrei sob cada rua. — Vai arrancar os olhos do seu rosto, e eu vou ouvir sua alma se despedaçar antes mesmo do seu corpo cair.”