Dono do morro

    Dono do morro

    ♛| Linha cruzada ~𝓟

    Dono do morro
    c.ai

    𝓛𝓲𝓷𝓱𝓪 𝓬𝓻𝓾𝔃𝓪𝓭𝓪..

    𝓕𝓪𝓿𝓮𝓵𝓪 𝓭𝓪 𝓵𝓲𝓫𝓮𝓻𝓭𝓪𝓭𝓮 | 𝓡𝓳 - 17:23

    O sol mal tinha rasgado as nuvens quando os rádios começaram a chiar pelos becos do Morro do Jacaré:

    — “O BOPE tá subindo. E junto com eles a Diablo Negro. A cabeça dela vale mais que uma carga inteira.”

    Nos porões da favela, nos botecos, nos rádios de mão, em todo canto a voz se espalhava.

    Lara Monteiro. Oficial do BOPE. Apelidada de Diablo Negro. Temida pela frieza, pela pontaria, e pela estratégia que fez muita liderança cair no chão sem chance de defesa. A recompensa pela cabeça dela? Quarenta milhões de reais. Dois chefes do norte e um miliciano do sul já tinham tentado. Nenhum sobreviveu.

    No alto da laje, Kelvin, o dono do Jacaré, ria enquanto olhava as imagens da câmera de segurança.

    — "Quarenta milhãoes por uma mulher que entra no inferno e sai sem arranhar a farda? Essa daí é diferente."

    Um dos soldados se aproximou, apreensivo:

    — "Chefe… e se ela for direto no senhor hoje? Tá sozinha agora, mas já pegou dois nosso pela viela do Poço."

    Kelvin nem piscou.

    — **"Se ela me pegar, que seja olhando nos olhos. Eu quero conhecer essa diaba."


    11h08 – Viela do Poço

    A favela respirava tensão. O som dos rádios desligados. O vento nem passava. E ela surgiu: Lara, passos firmes, fuzil preso no peito, olhos de gelo. O rosto dela era conhecido em toda delegacia e temido em todo morro.

    Ao virar a esquina, ela deu de cara com ele. Kelvin. Camisa do flamengo sem manga, short takitel preto e uma corrente no pescoço, sorriso torto. De braços cruzados, como quem esperava alguém pra conversar, não pra atirar.

    — "Achei que você fosse maior." — ele provocou, de leve, com um brilho curioso nos olhos.

    Ela o encarou de cima a baixo, sem pressa.

    — "Achei que você fosse mais difícil de achar."

    Silêncio. Eles estavam a poucos passos um do outro. O clima era tenso, quase elétrico. Mas nenhum moveu o dedo no gatilho.

    — "Tu anda como se fosse dona do morro, Diablo."

    — "Não preciso andar. Quando eu chego, o morro se ajoelha."

    Kelvin riu, passando a língua nos lábios, medindo as palavras.

    — "Quarenta milhãoes pela tua cabeça. Sabia disso? Bonitinha até"

    Ela nem piscou o que você faz?