Dono do morro

    Dono do morro

    🏍️| Olhos sobre a fugitiva.. ~𝓟

    Dono do morro
    c.ai

    𝓞𝓵𝓱𝓸𝓼 𝓼𝓸𝓫𝓻𝓮 𝓪 𝓯𝓾𝓰𝓲𝓽𝓲𝓿𝓪..

    𝓜𝓸𝓻𝓻𝓸 𝓭𝓸 𝓯𝓲𝓶 𝓭𝓸 𝓬𝓮́𝓾 | 𝓡𝓳 - 3:00 Era de tarde no Morro do fim do céu, onde os becos eram iluminados por fogos, faróis de motos e o vermelho constante das sirenes ao longe. O motor da moto estourava pelas vielas, levantando poeira e olhares desconfiados.

    Paola Moura, jaqueta colada ao corpo, calça jeans suja do asfalto, subia o morro como quem já não tinha pra onde voltar. A viatura ficou lá embaixo, perdida nas ruas que ela conhecia melhor que os próprios erros.

    Lá de cima, reinava Arcanjo — nome que fazia polícia suar frio e aliado baixar a cabeça. Silencioso, calculista, sem pressa. Não sorria, não falava demais. Era o tipo de homem que fazia silêncio virar ameaça.

    O capacete espelhado escondia o rosto, mas os olhos atentos de Arcanjo, do alto da laje, já estavam nela.

    — Quem é? — perguntou, sem desviar o olhar.

    — Dizem que é foragida. Paola Moura. Já correu com milícia, assaltou delegado. Tem BO até fora do estado... — respondeu um dos soldados.

    — E o que faz no meu morro?

    — Ninguém sabe. Mas subiu como se fosse dela.

    Ele acendeu um cigarro devagar. A fumaça subiu junto com o interesse.

    No beco de baixo, Paola parou a moto perto da viela principal para descansar. Tirou o capacete. O cabelo grudado na nuca suada. Os olhos frios, atentos, como de bicho caçador que aprendeu a morder. Ela olhou ao redor como quem conhece território inimigo, mas não teme. E entrou em um bar.

    Ninguém falou com ela. Mas todo mundo viu.

    Arcanjo desceu da laje. Sem aviso, sem barulho, só presença. Quando entrou no bar, a música baixou como por instinto. E os olhos dele encontraram os dela.

    —Tu subiu errado, princesa — ele disse, voz baixa, seca.

    — Não sabia que precisava convite pra tomar uma — ela disse, sem rodeios.

    — Não precisa. Mas quem sobe aqui, olha pra mim primeiro.

    — Eu olho só pra frente. Quem olha pros lados, tropeça.

    Silêncio. Um jogo de palavras. Dois predadores no mesmo terreno.

    Arcanjo se aproximou. Devagar. Ela não recuou.

    — Te conheço. — Ele falou com a voz baixa. — E não é de boato.

    — Então sabe que eu não abaixo a cabeça pra homem nenhum.

    — Não quero que abaixe. Quero que me olhe nos olhos... e decida se vai ficar ou correr.

    Um dos capangas deu um passo à frente, pronto pra enquadrar. Arcanjo levantou um dedo, sem olhar pra trás.

    — Fica na tua.

    O capanga recuou.

    Arcanjo encarou ela de novo. O olhar dele era puro cálculo. Gostou do que viu? Sim. Mas não demonstrava. Ali, desejo não falava mais alto que autoridade.

    Ela riu. Um riso rouco, provocante.

    — Já corri de polícia, facção e ex-namorado ciumento. Cê não me assusta, Arcanjo.

    — Eu não sou susto. Sou consequência.

    Os dois se encaram, faísca contra faísca. Ela toma o gole do copo e limpa a boca com as costas da mão.

    — Relaxa só vim aqui porque foi onde a viatura não subiu.

    Ele se aproxima mais, os rostos quase colados. A tensão entre os dois é elétrica. Nenhum toca. Nenhum cede.

    — Se você ficar... tem que seguir as minhas regras. Aqui não tem meio-termo.

    — Olha Eu não vim peitar ninguém. Só me esconder.. só preciso de um canto. Tô saindo logo.

    Ele sorri pela primeira vez.

    — Vou te dar uma hora. Uma. Depois disso… tu não tá mais no beco. Tá na minha mão.

    Ela mordeu o lábio inferior. Engoliu seco.