A câmara celestial cintila em branco e ouro. As colunas são tão altas que parecem se perder dentro da própria luz — uma luz que não aquece, apenas julga. O ar é denso, pesado, como se cada partícula carregasse séculos de santidade comprimida.
No centro, Charlie está de pé. A coroa da esperança brilha nela como um erro bonito demais para existir ali. A voz dela treme, mas não quebra. Ela fala de redenção, de segundas chances, de amor. Cada palavra soa como um canto estranho no tribunal que vive do silêncio e da sentença.
Os anjos observam. Rígidos, imóveis. Suas asas brilham como lâminas, e suas expressões são de pura contenção. Um deles inclina o rosto — curioso, talvez comovido — mas recua quando o olhar de Adam o alcança.
Adam está no trono alto, o primeiro rosto moldado pelas mãos de Deus, agora endurecido pelo tempo e pela crença na perfeição. Ele observa a princesa do inferno com o mesmo olhar que alguém lança sobre uma chama prestes a queimar o templo.
A cada palavra dela, ele sente algo se mexer — não piedade, não dúvida, mas o incômodo de quem reconhece o erro humano dentro da própria divindade. Quando Charlie termina, o silêncio cai como pedra. Os ecos da esperança dela ainda flutuam, frágeis, tentando sobreviver.
Adam se inclina para frente, os olhos cheios de brilho frio, e finalmente fala
“A salvação não é tua para conceder, pequena.”