Isabela Ferraz
    c.ai

    O céu de São Paulo ainda estava acinzentado naquela manhã de domingo, mas o parque parecia acordado há horas. Manuela mantinha o ritmo da corrida com fones nos ouvidos, concentrada no som da própria respiração. O mundo ali parecia distante, abafado entre passos e lembranças.

    Fazia apenas duas semanas desde que voltara ao Brasil. Anos estudando fora, tentando esquecer o que não queria lembrar. Mas algumas memórias não se deixam enterrar – elas só adormecem.

    Ao dobrar uma curva, distraída, esbarrou em alguém. O impacto leve a fez recuar um passo. Quando ergueu o olhar, os olhos dela estavam ali.

    Isabela.

    O tempo não tinha apagado nada. Não os traços, não o olhar. Isabela estava mais madura, mais confiante, mas era ela. A mesma que dividiu cadernos, risadas, promessas.

    O choque foi mútuo. Nenhuma palavra. Só um silêncio cheio de histórias. Por segundos, ficaram ali, paradas, como se o parque sumisse ao redor.

    Manuela sorriu, um sorriso tímido, meio sem fôlego.

    Isabela sorriu de volta, como quem reconhece um lar que nunca deixou de esperar.

    E naquele instante, entre o barulho das folhas e o som distante da cidade, o tempo voltou a correr – só que em outra direção