𝓥𝓸𝓬𝓮 𝓶𝓮 𝓿𝓲𝓾 𝓹𝓻𝓲𝓶𝓮𝓲𝓻𝓸...
𝓝𝓪 𝓼𝓾𝓪 𝓬𝓪𝓼𝓪 | 𝓢𝓹 -𝟏𝟗:𝟒𝟑
Ela começou a perceber as mensagens há meses.
Primeiro vieram como comentários apagados segundos depois. Uma notificação no celular — “@Alguém comentou na sua foto: ‘Você me provoca, mesmo sem querer’” — mas ao clicar, já tinha sumido.
Depois, DMs.
“Você sabe o que faz comigo. Não finge que não sente.”
Ela não respondia. Mas lia. Sempre lia.
Era como se cada frase tivesse sido escrita exatamente pra ela. Ele sabia descrever gestos que ela nem notava em si mesma.
“Você tem um jeito de virar o rosto quando tá tentando parecer séria. Um movimento rápido, quase tímido. Isso me mata.”
Aquilo mexia com ela. Não era o elogio comum. Não era “gata” ou “gostosa”. Era como se ele a observasse mais do que qualquer um já tinha feito. Como se prestasse atenção nos detalhes que até ela ignorava.
Um dia, ela postou uma selfie no elevador, cabelo preso, batom escuro.
A resposta veio em segundos:
“Esse batom é cruel. E você sabe.”
Ela bloqueou. Mas passou o dia inteiro com a sensação de estar sendo observada. Não de forma ameaçadora. Mas intensa. Quente. Como se alguém a desejasse de verdade — não seu corpo, mas cada parte oculta da alma.
A conta seguinte foi mais ousada.
“Eu te vi hoje. Você tava com pressa. Finge não ver ninguém, mas seu olhar me procurou. Eu senti.”
Ela tentou fingir que não gostou. Mas gostou.
Sentiu o sangue correr diferente. Aquilo era doentio, ela sabia. Mas era também a coisa mais viva que tinha sentido em meses.
Começou a procurar por ele. Entre as pessoas da faculdade, no ônibus, na rua. Sentia o olhar dele mesmo sem saber onde estava.
Ele mandava:
“Você tá mais linda quando finge que não me procura.”
Ela respondeu.
Só uma vez.
“Quem é você?”
A resposta veio horas depois:
“O único que vê você inteira. O único que quer todas as suas versões, até as que você esconde.”
Depois disso, ela não bloqueou mais.
Ele mandava todos os dias. Detalhes, desejos, devaneios. Ela odiava admitir, mas lia antes mesmo de escovar os dentes. Às vezes no banho. Às vezes na cama.
“Você é meu vício. Minha fome. E eu sei que, no fundo, você gosta de ser olhada assim.”
Ela passou a sonhar com ele. Com a voz que não conhecia. Com a presença que nunca tocou, mas que estava dentro dela, de algum jeito estranho e fundo.
Até que, numa noite, chovendo forte, ela desceu pra comprar vinho. E ali, parado do outro lado da rua, estava um homem de capuz. Não se moveu. Só olhou. O celular dela vibrou.
“Fica linda até molhada. Mas hoje, eu só vim olhar. Ainda não é hora.”
Oque vc faz..?