O apartamento estava mergulhado em penumbra. Apenas a luz azulada da tela do computador iluminava o rosto escondido sob a balaclava. Alekséi estava sentado imóvel na cadeira, observando-a como fazia todas as noites — a mesma hora, o mesmo ritual silencioso. Ela estava em frente à câmera, rindo com os olhos brilhantes, a pele reluzente sob a luz suave, brincando com seus seguidores como se fosse fácil. Mas não com ele.
Ela o conhecia como Volk97, o nome que aparecia sempre que ele entrava na sala de transmissão. Nunca mandava mensagens. Só assistia. Mas ela o notava. Sempre o notava. E naquela noite, ela olhou diretamente para a câmera e mordeu o lábio de leve, sorrindo como se soubesse de algo.
— “Você de novo...” ela disse, como se falasse com ele, mesmo entre centenas de nomes passando no chat. — “Sempre aí, quietinho. Nunca fala nada, mas sempre presente. Gosto disso.”
Alekséi sentiu o peito apertar. O que era aquilo? Calor? Ansiedade? Raiva? Ele não sabia. Mas sabia que queria aquela mulher. Queria protegê-la, controlar o que via, com quem falava, quem a fazia rir assim.
Naquela madrugada, ele quebrou o ritual. Mandou uma mensagem.
— “Você devia dormir cedo. Isso tudo cansa.”
Ela riu. Ele reconheceria aquele som em meio ao caos de uma guerra. O som que aquecia os becos gelados da mente dele.
— “Ah... então o lobo fala.” ela respondeu com um sorriso malicioso. — “Você se preocupa comigo?”
Alekséi hesitou, os dedos pesados sobre o teclado. A raiva contida, a confusão, tudo misturado em um impulso doentio de posse e cuidado.
— “Sim. Eu assisto todas as noites. Não por isso. Por você.”