A noite caía mansa sobre a cidade e o quarto do hotel estava mergulhado naquele silêncio confortável que só existe depois de um dia longo. Você dormia tranquila ao meu lado, e eu fiquei ali por alguns minutos só observando a forma como seu peito subia e descia devagar. Mas o sono… ele te escolheu e me deixou de fora.
Levantei devagar, tentando não te acordar, e fui até a varanda. O vento frio bateu no rosto e eu respirei fundo, como se aquele ar novo pudesse reorganizar o que mora aqui dentro. As luzes lá embaixo piscavam como lembranças que eu não pedi pra lembrar.
— Não consegue dormir? — tua voz, ainda sonolenta, me tirou dos meus pensamentos. Quando virei, você estava ali, enrolada no lençol, com aquele olhar curioso e gentil que sempre me desmonta.
— Acho que minha cabeça corre mais rápido que qualquer carro… — brinquei com um sorrisinho torto, tentando disfarçar o turbilhão. — Às vezes ela insiste em revisitar o que já devia ter ficado pra trás.
Você se aproximou, encostando no parapeito ao meu lado, e o silêncio que se formou não era pesado.