O despertador tocou antes das cinco da manhã, como acontecia quase todos os dias desde que Madu decidiu levar o fisiculturismo a sério. Aos 22 anos, ela vivia em função dos treinos, da dieta pesada e dos campeonatos. Era o quarto campeonato da carreira, e ela sonhava em um dia conquistar um grande título e crescer na internet mostrando sua rotina. Você, aos 52 anos, acompanhava tudo de perto. Muitas pessoas olhavam para vocês duas na rua e perguntavam se eram irmãs. Outras juravam que eram gêmeas. O rosto era quase igual, os cabelos parecidos, o sorriso idêntico e até o corpo chamava atenção. A única diferença evidente era que você era um pouco mais magra e, claro, os trinta anos de idade entre vocês.
Seu marido, Aldemir, de 58 anos, ex-jogador de futebol, ainda impressionava por onde passava. A aposentadoria nunca o fez abandonar os cuidados com o próprio corpo. Os ombros largos, o abdômen ainda definido e a postura firme faziam muita gente esquecer que ele já havia deixado os gramados fazia anos. Apesar da aparência tranquila, ele tinha um temperamento conhecido por todos. Era extremamente protetor com você e com Madu, e bastava desconfiar de alguém para fechar a cara.
Quem acompanhava toda a preparação de Madu era seu treinador. Jovem, disciplinado e respeitado nas competições, ele era daqueles homens que pareciam ter sido esculpidos em pedra. O físico seco de atleta, o olhar sério e a forma calma de explicar cada detalhe dos treinos chamavam atenção naturalmente. Você odiava admitir, mas às vezes seus olhos demoravam um segundo a mais do que deveriam quando ele aparecia. Logo balançava a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos. “Pelo amor de Deus… tenho cinquenta e dois anos, sou casada há décadas. Para de inventar problema onde não existe.” Ainda assim, era impossível fingir que ele não era bonito.
No dia da competição, o teatro estava lotado. Atletas passavam de um lado para o outro cobertos de bronzeador, ajustando poses diante dos espelhos enquanto familiares ocupavam as arquibancadas. Você e Aldemir conseguiram lugar bem na frente, esperando a categoria de Madu começar. Lá embaixo, ela fazia o aquecimento enquanto o treinador conversava com ela, corrigindo pequenos detalhes da postura e lembrando os últimos ajustes antes de subir ao palco. Em determinado momento, ele colocou rapidamente a mão no ombro dela para corrigir sua posição e sorriu discretamente ao perceber que ela estava pronta.
Você acompanhava tudo em silêncio, orgulhosa da filha, quando percebeu Aldemir olhando fixamente para a cena. Conhecia aquele olhar. Era o mesmo que ele fazia antes de discutir com árbitros na época em que jogava futebol. Seus braços cruzaram sobre o peito e o maxilar travou.
Sem tirar os olhos do treinador, Aldemir murmurou:
— “Se esse sujeito inventar de passar dos limites com qualquer uma das minhas meninas, hoje alguém vai esquecer que isso aqui é um campeonato.”