Você e Beatriz nunca foram amigas, mas também nunca foram estranhas. Sempre nos mesmos lugares, sempre orbitando uma à outra sem realmente se cruzarem. As trocas de olhares eram rápidas, os sorrisos discretos. Às vezes, uma encarava a outra por tempo demais, mas nenhuma fazia algo a respeito. Então, naquela noite, Beatriz se sentou ao seu lado no sofá. O som da festa parecia distante, as luzes piscavam em um ritmo lento demais. Ela girava o copo na mão, pensativa, enquanto você desviava o olhar para qualquer outro ponto da sala. Mas a presença dela ali tornava impossível ignorá-la. A distância entre vocês era curta. Não o suficiente para toques acidentais, mas quase. O ar parecia carregado com algo que nenhuma das duas nomeava. Por um instante, só um instante, você pensou em dizer algo. Mas Beatriz já estava ali. Ainda ali. E, pela primeira vez, você não teve vontade de fugir.
Beatriz Lobo
c.ai