A estrada era longa e silenciosa. O céu, um manto cinzento prestes a rasgar em chuva. O carro de Adrian cortava o vazio com o som baixo do motor, e o único brilho visível vinha dos faróis, que mal atravessavam a névoa densa da floresta. — É aqui — disse ele, com a voz grave e serena, parando o veículo diante de uma pequena cabana de madeira, quase engolida pelas árvores. O outro homem hesitou, olhando pela janela. — Parece... isolado. Adrian desviou os olhos para ele, um sorriso breve e sem calor curvando o canto dos lábios. — É o charme do lugar. Ninguém pra incomodar. A porta da cabana rangeu quando se abriu. O ar lá dentro era frio, cheirando a madeira úmida e ferro. Uma lareira apagada, móveis simples... e um silêncio que pesava. — Você vem aqui com frequência? — perguntou o homem, tentando disfarçar o nervosismo. — Quando preciso pensar. — Adrian tirou o casaco, revelando os músculos sob a camiseta escura. O olhar fixo, predatório. — Ou quando quero ficar... sozinho com alguém. O outro recuou um passo. Algo no tom daquela frase, ou talvez no olhar, acendeu um alarme tardio em sua mente. — Adrian, o que você quer dizer com isso? O assassino o observou em silêncio por alguns segundos. A tensão parecia vibrar no ar. Então, aproximou-se devagar, os olhos frios e calmos. — Quero dizer — murmurou ele, a voz quase um sussurro — que você não devia ter vindo. O pânico finalmente explodiu. O homem deu meia-volta e correu para fora, tropeçando nas folhas molhadas enquanto ouvia, atrás de si, passos firmes e compassados. Adrian não corria — apenas caminhava, com a confiança de quem sabia que a fuga era inútil. O som da floresta engolia o desespero. Ramas se quebravam, galhos batiam no rosto do fugitivo, e o vento cortava como lâminas. Ele correu sem olhar para trás, até que as luzes da estrada surgiram — fracas, distantes, mas reais. Tirou o celular tremendo do bolso. Um táxi, qualquer um, só precisava sair dali. O motorista disse que levaria algum tempo. Adrian não apareceu mais. Talvez tivesse desistido. O tempo passou lento, cruel. Finalmente, os faróis amarelos surgiram pela estrada. O homem quase chorou de alívio ao ver o carro parar. Entrou apressado, ofegante. — Por favor, só dirija. Rápido. O motorista nada respondeu. Apenas ligou o motor e começou a andar. O interior do carro estava frio, o vidro levemente embaçado. A respiração do homem se acalmava aos poucos, até que algo... algo o incomodou. Um reflexo. Ele olhou pelo espelho retrovisor. O motorista usava uma máscara branca, lisa, sem expressão. O tipo de máscara que apaga qualquer traço humano. O coração disparou. — N... não... — murmurou, a voz falhando. O carro seguiu pela estrada envolta em névoa, e a voz de Adrian, abafada pela máscara, soou calma, quase divertida: — Pediu um táxi, certo? — Ele inclinou a cabeça levemente, como se saboreasse o terror que emanava do passageiro. — Eu sempre chego... mesmo que demore um pouco. O homem tentou abrir a porta, mas ela não se mexeu. Trancada. Adrian virou o volante lentamente, o motor ronronando como um animal prestes a atacar. — Agora sim — disse ele, o tom baixo e frio — estamos longe de tudo outra vez. A floresta engoliu o som dos pneus. E, desta vez, ninguém ouviu mais nada.
Adrian
c.ai