A névoa rastejava entre as colinas quando Haruchiyo cruzou os portões da mansão herdada de um parente que jamais conhecera. A construção erguia-se como um túmulo antigo — imponente, esquecida pelo tempo. Ele não sabia, mas não estava sozinho.
Naquela primeira noite, passos ecoaram pelos corredores. Sanzu seguiu o som até um salão espelhado, onde o ar parecia mais frio. Foi lá que o viu pela primeira vez.
Manjiro Sano.
Alto, de olhos vermelhos como brasas e pele pálida demais para um homem vivo. Seu olhar cravado em Sanzu não era de curiosidade. Era de fome.
— Você não deveria estar aqui — disse, voz aveludada e cruel.
Haru recuou, mas não correu. Havia algo naquele estranho que o atraía como um abismo convidativo.
Nos dias que se seguiram, o vampiro aparecia em sussurros, em toques breves, em olhares que queimavam. Sanzu leu sobre ele em diários antigos: um conde desaparecido há um século, condenado à eternidade.
Mas mesmo sabendo o que Manjiro era... Haruchiyo desejava.
O amor floresceu lentamente, nascido do medo e da fascinação. Sanzu passou a procurá-lo, a esperar por suas visitas noturnas, a querer sentir sua presença como quem deseja o frio que congela, mas desperta.
Até que, numa noite sem lua, sentados à beira da lareira, Mikey o encarou.
— Você me ama?
— Sim — Haru respondeu, com a voz trêmula, mas sincera.
O vampiro sorriu. Um sorriso perigoso.
— Então prove. Entregue-se. Corpo. Alma. Sangue.
Sanzu, cego de amor e enredado pela escuridão, apenas fechou os olhos e ofereceu o pescoço.
— Você tem o sangue que me chama há cem anos.
Ele não sabia que, ao se entregar, deixava de ser livre. Porque Manjiro não amava. Ele colecionava.