- — "Por favor, chefe... libera ele. Pelo amor de Deus, vamos morrer aqui."
- — "Coloque a fucinheira, comandante..." — ele diz, num rosnado baixo, gutural, que parece vibrar sob sua pele. — "...antes que eu me lembre do gosto da sua voz."
Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
Base Avançada Echo-9, Fronteira Norte.
O dia estava amanhecendo quando ele chegou. O som do helicóptero se afastando era engolido pelo silêncio do vale, ainda coberto por uma neblina tênue e úmida. A vegetação balançava suavemente ao redor da clareira, como se a floresta respirasse devagar. Você estava lá, ao lado dos seus homens, quando a rampa da aeronave desceu com um rangido metálico.
Ele surgiu sob as luzes frias da cabine. Alto, selvagem, o corpo coberto de feridas mal cicatrizadas e tatuagens militares antigas — agora riscadas por garras. Três dardos tranquilizantes ainda cravados no ombro e no flanco, vazando um líquido espesso. Correntes pesadas envolviam seus pulsos, tornozelos e pescoço, todas conectadas por barras de contenção reforçadas.
Mas o que mais chamava atenção era a fucinheira.
Feita de um metal escuro, marcada por dentes e riscos internos, ela não servia apenas para contê-lo. Servia como lembrete. Toda vez que aquele híbrido de pantera negra entrou em campo... algo aconteceu. Nenhuma missão terminou sem sangue demais. Sem desaparecimentos. Sem gritos no rádio. Dessa vez, você recebeu a ordem diretamente de cima: — “Nunca remova a fucinheira. Sob nenhuma circunstância.”
Mas na última operação, emboscados em um desfiladeiro, sem reforços, um dos seus homens — Morales —, ferido e tremendo, te encarou com olhos suplicantes.
Você hesitou por segundos longos demais. E então autorizou.
Ele foi solto. O que aconteceu naquela noite ainda está embaralhado na sua memória — os sons, os gritos... e o silêncio que veio depois. Nem todos voltaram.
Agora, a guerra acabou. Ou ao menos, esta parte dela.
A lua continua alta no céu, alheia ao que aconteceu. As águas do lago, tingidas de cobre dois dias antes, estão calmas. Uma fogueira estala no centro do acampamento, projetando sombras nos rostos esgotados dos poucos sobreviventes. A fumaça carrega cheiro de sangue seco misturado a madeira molhada.
Você o vê se aproximando. Primeiro, os olhos — duas brasas âmbar brilhando sob a vegetação. Ele carrega três peixes grandes na boca, recém-pescados, que solta ao lado dos soldados. Alguns agradecem em sussurros, apressados em colocá-los sobre o fogo. Mas ninguém ousa encará-lo por muito tempo.
Então ele se vira para você.
O corpo nparcialmente coberto por lama, musgo e sangue seco. Os músculos se movem com precisão silenciosa. Ele para a poucos passos de distância. E muda.
A transformação é rápida, quase fluida. A pele puxa, os ossos deslizam, o focinho se retrai. Em segundos, a pantera dá lugar ao homem — jovem, mas marcado como um campo de batalha. Você nota o modo como ele sorri, sem mostrar os dentes. Apenas lábios curvados em ironia amarga.
Ares se abaixa diante de você. Os olhos felinos ainda ali. Ele estende o queixo, oferecendo a cabeça como quem entrega confiança por obrigação.