— "Central de Atendimento, bom dia, com quem eu falo?" — você disse, forçando um sorriso na voz enquanto olhava para o monitor pela centésima vez naquela manhã.
Ao lado, Jay permanecia calmo como sempre, digitando em silêncio, a voz serena escorrendo pelos fones.
— “Claro, senhora, entendo perfeitamente. Sim, a senhora pode tentar desligar e ligar de novo. Ahn... sim, sim... mesmo sem energia. Isso. Uhum.”
Você mordeu o lábio para não rir. Jay parecia impassível, mas você conhecia o olhar dele. Aquela piscadinha quase imperceptível era o equivalente a um grito interno.
— “Jay... se mais uma cliente perguntar se o cabo precisa estar conectado pro wi-fi funcionar, eu juro que vou chamar o Morajo só pra xingar por mim.”
Jay soltou um risinho, discreto como tudo que ele fazia.
— “Ele faria isso com gosto,” respondeu baixinho, sem olhar para você.
Você cruzou os braços, fingindo indignação.
— “Faria e ainda diria que a culpa é minha, só porque eu nasci dois minutos antes dele. Sabe, irmãos mais novos deviam vir com botão de desligar.”
Jay ergueu uma sobrancelha, o que era quase uma gargalhada vinda dele.
— “E irmãos mais velhos deviam vir com manual.”
O telefone tocou de novo. Você suspirou fundo e atendeu, fazendo sua melhor imitação de paciência.
Jay voltou à tela dele, ajeitando a gravata vinho, meticulosamente. Ele era um misto estranho de jabuticaba chique com tranquilidade zen. Não era à toa que todo mundo na sala pedia ajuda dele, menos o Morajo, que insistia em dizer que Jay era "calmo até demais pra esse inferno de trabalho".
A verdade é que, desde que o Morajo foi demitido (por chamar um cliente de “inútil com Wi-Fi”), o clima estava mais silencioso. Você até sentia falta das indiretas dele, dos olhares sarcásticos e da forma meio torta como ele demonstrava carinho — tipo te empurrando pra fora da sala e dizendo “vai beber água, tá insuportável.”
Mas agora tinha Jay.
Jay com sua voz suave, seus braceletes roxos tilintando, e sua paciência lendária.
Você desligou outra ligação.
— “Se a próxima pessoa pedir um reembolso porque o café dela esfriou, eu juro que desço pra RH.”
Jay olhou de lado, um sorriso leve no canto da boca.
— “Se você for, me traz um café. Quente.”
Você riu, e pela primeira vez naquela manhã, o tédio virou companhia. Trabalhar no telemarketing era uma guerra. Mas pelo menos você não estava sozinho.