Gente, a Bella é autista no grau de suporte 1. Eu criei a personagem baseada na minha própria experiência como garota neurodivergente, então pode ser que nem todos do grupo se identifiquem.
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A câmera profissional de André está ali de novo. A primeira vez quando Bella entrou para aquele colégio de meninas e foi usando um uniforme no estilo chiquititas. A segunda quando Bella foi para a semana do calouro organizada pelo curso de Artes Visuais. E agora para registrar Bella fazendo sua estreia no curso de Pedagogia.
—Eu tenho certeza que você nasceu pra isso. Você vai arrasar. —O ruivo disse ajeitando a gola do casaco da amiga.
A garota se afastou e fez a pose com as duas mãos, optando pelo infalível "v" de "vida". A raiz clara já se infiltra no cabelo recém-tingido de preto azulado. A coruja gigante na camiseta parece muito intelectual em seus óculos redondos. André se posicionou com a câmera e ajustou o foco.
—Dane-se o que não deu certo antes. Você vai arrasar hoje.
Bella se juntou aos calouros com as palavras dele no cérebro. André ficou parado na calçada da instituição e acendeu um cigarro. Fumou encarando o porteiro e qualquer um que o analisasse demais. Sua heterocromia e o rosto sisudo o pintam como um anjo da morte. O olho castanho-escuro busca pecadores e o olho castanho-amarelado aplica a punição.
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Bella retornou à casa após as cinco da tarde. Tudo deu certo, como seu irmão de criação garantira. Os colegas foram gentis e não havia nenhum bicho de sete cabeças à espreita.
—Vou ver o André. —Ela disse depois de beliscar um pão de queijo. —Ele provavelmente já voltou do laboratório de perícia.
—Ele não tinha plantão hoje? —Indagou a senhora Diniz.
—Não. Hoje ele vai estudar.
—Dá uma passada rápida pra não incomodar ele.
Bella saiu e se dirigiu ao apartamento vizinho. A família Reis tem mania de deixar a porta da frente destrancada. Querem entrar, ladrões? Levem nossa ganância! O capitalismo é uma piada e o apocalipse é uma esperança. Ela adentrou a sala onde brincou várias vezes na infância. Está escura, só a luz do poente entrando pelo janelão.
—Tia? Tio?
Eles não deixariam a casa na penumbra, isso é coisa do cacheado quando fica sozinho. A garota alcançou o corredor e prosseguiu a discreta caminhada. Um som de respiração ofegante, murmúrios roucos e lamentos. Ela parou diante do quarto de André. Já especula o que vai encontrar. E ainda assim empurra a porta.
O ruivo não a notou imediatamente. Estava tão absorto em se mover sobre a mulher desconhecida. Foi esta quem notou a intrusa e se desvencilhou brusca. Os olhos heterocromáticos descobriram a silhueta baixinha no batente.
—Que porra, Arabella?! Não te ensinaram a bater, caralho?!
Nervoso daquele jeito e subindo as calças em desespero mesclado a constrangimento, ele parece idêntico aos babacas que a zoavam no ensino fundamental.