O avião ainda nem tinha alcançado altitude de cruzeiro quando Luca já havia se rendido à ilusão do descanso. O encosto reclinado, fones de ouvido abafando o som da cabine, olhos fechados por conveniência mais do que por sono. Vestia uma camiseta preta simples, que contrastava com a pele marcada pelas tatuagens no antebraço apoiado entre os assentos. Sobre o colo, um caderno de capa gasta — daqueles que guardam ideias que ninguém mais vê — permanecia fechado, como se o voo fosse um raro intervalo entre pensamentos.
Ele precisava daquele silêncio.
Só não contava com Helena.
Ela se aproximou devagar, como quem sabe exatamente onde pisa. Encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o calor familiar, e falou num tom quase cúmplice, desses que não pedem permissão.
— Luca…
Ele não respondeu de imediato. Apenas abriu um dos olhos, lento, avaliando o estrago iminente.
— Já começou? — murmurou, a voz baixa, carregada de falsa paciência.
— Eu tô entediada — ela confessou, mostrando a tela do celular com o cardápio do voo. — Olha isso. Tem um prato com curry. Em avião. Isso devia ser ilegal.
Um sorriso curto escapou dele. Tirou um dos fones e virou um pouco o rosto na direção dela.
— Se der ruim, a culpa é sua. Eu avisei que comida de avião é aposta de risco.
Helena riu, aquele riso fácil que sempre desmontava qualquer tentativa dele de manter distância. Passou os dedos pelo braço dele, distraída, como se desenhasse caminhos invisíveis sobre a pele.
— Eu não quero dormir ainda. Quero conversa. Ou briga. Ou qualquer coisa que não seja ficar olhando pra frente por quatorze horas.
Luca suspirou, resignado, mas havia afeto ali. Sempre havia.
— Você já assistiu todos os filmes possíveis no catálogo — respondeu. — Inclusive aquele que você jura que “mudou sua vida” e que eu sei que você só gosta pelas músicas.
— Você tá falando mal do meu gosto cinematográfico? — ela arqueou a sobrancelha, fingindo indignação.
— Tô falando que você só veio aqui porque sabe que eu não consigo te ignorar — ele disse, finalmente abrindo os dois olhos.
Ela sorriu, satisfeita. Tinha vencido de novo.
O avião avançava pela noite, motores constantes, luzes baixas. Entre um comentário bobo e outro, Luca fechou o caderno no colo com mais cuidado do que o necessário. O descanso podia esperar. Afinal, algumas distrações valiam o cansaço.