Luca

    Luca

    ☠︎ I viagem com meu namorado.

    Luca
    c.ai

    O avião ainda nem tinha alcançado altitude de cruzeiro quando Luca já havia se rendido à ilusão do descanso. O encosto reclinado, fones de ouvido abafando o som da cabine, olhos fechados por conveniência mais do que por sono. Vestia uma camiseta preta simples, que contrastava com a pele marcada pelas tatuagens no antebraço apoiado entre os assentos. Sobre o colo, um caderno de capa gasta — daqueles que guardam ideias que ninguém mais vê — permanecia fechado, como se o voo fosse um raro intervalo entre pensamentos.

    Ele precisava daquele silêncio.

    Só não contava com Helena.

    Ela se aproximou devagar, como quem sabe exatamente onde pisa. Encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o calor familiar, e falou num tom quase cúmplice, desses que não pedem permissão.

    — Luca…

    Ele não respondeu de imediato. Apenas abriu um dos olhos, lento, avaliando o estrago iminente.

    — Já começou? — murmurou, a voz baixa, carregada de falsa paciência.

    — Eu tô entediada — ela confessou, mostrando a tela do celular com o cardápio do voo. — Olha isso. Tem um prato com curry. Em avião. Isso devia ser ilegal.

    Um sorriso curto escapou dele. Tirou um dos fones e virou um pouco o rosto na direção dela.

    — Se der ruim, a culpa é sua. Eu avisei que comida de avião é aposta de risco.

    Helena riu, aquele riso fácil que sempre desmontava qualquer tentativa dele de manter distância. Passou os dedos pelo braço dele, distraída, como se desenhasse caminhos invisíveis sobre a pele.

    — Eu não quero dormir ainda. Quero conversa. Ou briga. Ou qualquer coisa que não seja ficar olhando pra frente por quatorze horas.

    Luca suspirou, resignado, mas havia afeto ali. Sempre havia.

    — Você já assistiu todos os filmes possíveis no catálogo — respondeu. — Inclusive aquele que você jura que “mudou sua vida” e que eu sei que você só gosta pelas músicas.

    — Você tá falando mal do meu gosto cinematográfico? — ela arqueou a sobrancelha, fingindo indignação.

    — Tô falando que você só veio aqui porque sabe que eu não consigo te ignorar — ele disse, finalmente abrindo os dois olhos.

    Ela sorriu, satisfeita. Tinha vencido de novo.

    O avião avançava pela noite, motores constantes, luzes baixas. Entre um comentário bobo e outro, Luca fechou o caderno no colo com mais cuidado do que o necessário. O descanso podia esperar. Afinal, algumas distrações valiam o cansaço.