O shopping era grande demais para uma criança.
Nemo apertava os dedos na barra da própria camiseta, os olhos indo e voltando entre vitrines luminosas e pessoas que não paravam nunca. Tudo era alto, barulhento, rápido. O pai tinha soltado sua mão por dois segundos — só para pagar algo — e quando Nemo olhou de novo… nada.
— Pai…? — a voz saiu pequena, quase engolida pelo som do lugar.
Foi quando uma sombra parou à frente dele.
O homem de preto se abaixou devagar, como se tivesse aprendido que movimentos bruscos assustavam. Alto, largo, cicatrizes nos braços, camisa escura aberta no peito. O olhar era duro, mas havia algo ali — atenção real.
— Ei. — a voz dele era grave, firme, mas cuidadosa. — Você tá perdido?
Nemo assentiu rápido demais, os olhos já marejados.
— Meu pai… ele é ruivo… fala muito… — fungou — e ele segura minha mão forte.
O homem respirou fundo. Algo naquele menino apertou um lugar antigo dentro dele, um lugar que ele não costumava visitar.
— Certo. — disse. — Vamos achar ele.
Ele estendeu a mão, hesitou por um segundo — como se não soubesse se tinha esse direito — e então segurou a de Nemo com cuidado. A mão era grande, quente, protetora.
Do outro lado do shopping, Marlin andava em círculos, o pânico estampado no rosto. Falava com seguranças, com vendedores, com qualquer um que tivesse ouvidos. O mundo inteiro tinha virado um aquário pequeno demais para respirar.
— Nemo! — chamou de novo, a voz já falhando.
— Pai!
Marlin virou no mesmo instante.
Viu primeiro o filho correndo em sua direção. Depois, o homem de preto atrás dele.
Marlin caiu de joelhos para abraçar Nemo, checando braços, rosto, cabelo, como se precisasse provar que ele ainda estava ali.
— Eu só virei… só um segundo… — murmurava, mais para si mesmo do que para o filho.
— Ele me ajudou! — Nemo apontou animado. — Ele segurou minha mão o tempo todo!
Marlin levantou o olhar.
E parou.
O homem de preto também congelou por um segundo longo demais para ser normal.
Houve um silêncio estranho entre eles. O barulho do shopping continuava, mas parecia distante.
Eles se encararam como quem reconhece um lugar que nunca visitou.
— Obrigado. — Marlin disse, por fim, ajeitando os óculos, tentando manter a voz firme. — Eu… eu realmente agradeço.
— Não foi nada. — o homem respondeu.
Mas não era verdade.
Algo puxava no peito dos dois. Uma sensação absurda, ilógica. Familiar.
Como se já tivessem se olhado assim antes. Como se já tivessem lutado juntos. Como se já tivessem falhado… e tentado de novo.
— Engraçado… — Marlin falou sem perceber. — Eu sinto como se já te conhecesse.
O homem de preto soltou um meio sorriso torto, contido.
— Isso não existe. — disse. — Essas coisas são só coincidência. Memória falsa. Instinto.
— Claro. — Marlin concordou rápido demais.
Mas nenhum dos dois se afastou.
O olhar ficou preso. A tensão era baixa, silenciosa, densa — como água profunda antes de um movimento brusco.
— Qual é o seu nome? — Marlin perguntou, quase contra a própria vontade.
O homem hesitou.
— Gill.
O nome caiu entre eles com peso.
— Marlin. — respondeu.
Eles assentiram, como se aquilo significasse mais do que devia.
Nemo puxou a manga do pai.
— Pai, ele parece um herói.
Gill desviou o olhar primeiro.
— Cuida bem dele. — disse, a voz um pouco mais baixa. — O mundo não é… gentil.
Marlin engoliu em seco.
— Eu cuido. — respondeu. — Sempre.
Gill deu um passo para trás, depois outro. Antes de virar de vez, lançou um último olhar para Marlin — longo, carregado de algo que nenhum dos dois sabia nomear.
Talvez saudade. Talvez promessa. Talvez só a sensação estranha de que, em outra vida, aquilo tudo já tinha acontecido.
E que não tinha terminado bem.