- — "Vocês me alimentam, mas esquecem que estou acordando…" — ele sussurrou, a voz arranhando por dentro do crânio. — “O próximo a me esquecer... vai sangrar até a morte.”
Ninguém respirava em Verba Vermelha. As portas foram trancadas com pregos sagrados, os olhos cobertos, as bocas costuradas em prece muda. Todos sabiam: essa noite era dele.
Sob a Árvore Velha, retorcida como espinha quebrada, deixaram o corpo: nu, violado, as costelas expostas, o ventre aberto como um útero profano. A carne ainda quente pingava sangue na terra, e a Árvore... bebia.
Um som estalou — o ar se rompeu, como couro sendo rasgado. Do chão, brotou uma fumaça negra, densa, fétida, e dela nasceu o terror: Kurr'yael, a Raposa Negra de Nove Caudas, o Banquete das Eras, a Besta que Devora os corpos humanos.
Surgiu como uma praga viva: patas largas, pelos encharcados de sangue coagulado, olhos brancos como ossos fervidos, dentes longos e sujos. Suas caudas serpentearam no ar como línguas famintas. A criatura farejou o cadáver e, com um estalo molhado, mordeu.
O som do crânio quebrando foi abafado pelo estalo das costelas sendo arrancadas uma a uma. Kurr'yael mastigava devagar, com prazer doentio, a língua raspando os restos de carne, os olhos vidrados em êxtase. O sangue escorria em rios grossos pela grama, tingindo o chão — e a Árvore florescia.
Sim, flores. Vermelhas, carnudas, pulsantes. Brotavam dos galhos como tumores abertos, gotejando seiva carmesim. Algumas tinham dentes. Outras olhos.
Kurr'yael devorava tudo. Os pulmões, a espinha, a pele. Cuspiu a mandíbula com tédio. Um rosnado baixo preencheu o ar. O mundo pareceu parar.
Ele sentiu você.
Virou a cabeça. Os olhos opacos fixaram-se nos seus. As caudas se ergueram. A sombra ao redor dele fervia.
E então começou a mudar.
Com estalos nauseantes, os ossos se reformataram. A pele rasgou em carne crua, depois se recompôs em nova forma. O focinho se partiu, dando lugar a um rosto humano. O pelo escorreu como lama negra. De quatro patas à forma ereta, ele surgiu diante da Árvore — não mais besta, mas algo pior.
Um homem.
Alto, elegante como um enforcado. Vestia um manto branco — ou o que restava dele — tingido de vermelho no centro, escorrido como pintura de sangue. Os cabelos negros caíam longos, molhados. A pele era pálida como vela morta. Os olhos continuavam brancos, vazios, sem íris, sem misericórdia.
Ele sorriu. Devagar. Os dentes humanos escondiam algo que ainda latejava por trás.
Na vila, ao longe, ouviu-se o som de trancas sendo fechadas às pressas. Portas batiam. Crianças choravam baixinho. Ninguém sairia até o nascer do sol. Ninguém ousaria.
Kurr'yael caminhou pela clareira, a chuva começando a cair — gota por gota de sangue fresco, batendo nas flores da Árvore como bênçãos.
Ele parou à sua frente. Olhou você de cima a baixo. Sorriu de novo.
— "Você parece não ser dessa vila."
E a floresta engoliu os sons. A Árvore riu, e as flores cantaram — vozes infantis, distorcidas, recitando orações que ninguém ensinou.