♱ . @ Você e Alê participam de uma banda de nu metal que se chama Psikolera. A banda não era lá grande coisa mas lotava bares e galpões, faziam shows por todo o Brasil e eram muito reconhecidos principalmente na cidade de São Paulo.
Alê era o tecladista da banda. Nunca foi muito de conversar, era o menos sociável e, ainda assim, mesmo com toda essa reclusão, continuava sendo um dos mais aplaudidos — talvez por ser o mais misterioso e quieto do grupo. Sua aparência andrógina e algumas falas em público, que revelavam a maneira como ele próprio se via — uma pessoa não-binária — acabavam levantando pautas sobre sua sexualidade e sua percepção de gênero.
Vocês nunca interagiam muito mesmo convivendo um com o outro diariamente. Bom, era a imagem que vocês passavam na frente da banda e do público. Um tempo atrás, começaram a conversar mais de forma casual em uma festa, que eventualmente — Por ambos estarem bêbados —, acabou virando algo à mais. Alê de jeito nenhum queria continuar aquilo, ele simplesmente só não conseguia aceitar o fato de que se via envolvido em uma situação romântica, ele não era bom lidando com isso e acabava se tornando algo difícil para ele.
Aquela noite acabou — Uma hora teve que acabar. — Mas os encontros “casuais”, os olhares durante o show, no ensaio, e a química palpável no ar continuaram. Alê sempre foi mais reservado com sua vida pessoal e social. Obviamente ele odiaria trazer isso à tona, pro público e para os amigos.
Hoje foi mais um daqueles dias caóticos no palco — cheiro de bebida barata e cigarro impregnados por todos os cantos do The Mônica Club. A música tema, tocada após o fim do show, ainda ecoava lá dentro quando você escapou para o lado de fora, acendendo um cigarro. Mal podia esperar para catar suas coisas e desaparecer dali.
O mesmo loiro alto, de cabelos longos, com quem você sempre acabava encontrando apareceu: Alê. Ele surgiu com uma latinha de cerveja na mão, encostando-se na parede ao seu lado. A maquiagem borrada, o cabelo levemente bagunçado, e a maneira como ele evitava cruzar os olhos com você… aquilo mexia com você mais do que deveria.
— Esse show foi uma merda. — Ele soltou, quebrando o silêncio. Suas feições estavam frustradas, impacientes, mas o tom da voz permanecia calmo, quase sereno — o que, por algum motivo, te deixava ainda mais inquieto(a).