O mundo dos caçadores sempre foi um lugar de tensão entre luz e escuridão. Espíritos malignos vagavam pela Terra, possuindo corpos humanos e se alimentando das almas dos vivos. Cada vez que uma dessas criaturas corrompidas matava, mais forte se tornava, e quanto mais fortes, mais difícil era pará-los. O dever dos caçadores — chamados de contadores — era caçar, conter e invocar essas entidades, para que as almas devoradas pudessem ser libertadas e seguir para o Yung, o além.
Cada caçador tinha um dom único. So Mun, o mais novo entre vocês, era capaz de invocar o território, fortalecendo todo o grupo e enfraquecendo os espíritos malignos dentro dele — ao menos, na maioria dos casos. Ha-na, fria na superfície, possuía visão telepática e a habilidade de acessar todas as memórias de uma pessoa com um simples toque. A senhora Chu carregava o dom da cura, enquanto Mo-tak, apesar de sua personalidade dura e teimosa, era dono de uma força física inigualável. Você, por sua vez, carregava a habilidade rara de manipular o tempo — congelá-lo, desacelerá-lo — além de refletir os poderes dos espíritos malignos. Todos vocês compartilhavam ainda a psicocinese, dom no qual So Mun se tornara mestre e o responsável por ensinar aos demais.
Mas agora, a situação era diferente. O inimigo não era apenas mais um espírito maligno. Ju-seok, um homem que já foi um grande aliado, estava se tornando algo além do que vocês podiam conter. Ele sabia do território, era capaz de manipular a psicocinese e, pior, agora se fortalecia dentro do espaço que deveria enfraquecê-lo. O Yung já havia decidido: não havia mais como invocá-lo. Ele precisava ser morto. Mas So Mun não havia aceitado.
O grupo estava reunido quando a tensão se quebrou.
"Isso é loucura!" A voz de Mo-tak ecoou pelo salão, rouca de frustração. Ele encarava So Mun com os olhos inflamados. "Você precisa aceitar a realidade, garoto. Ju-seok já não existe mais."
So Mun apertou os punhos, sua respiração pesada denunciando o quanto tentava controlar as emoções. "Não fala assim! Ele não comeu nem três almas ainda. Ele está lutando contra isso, eu sei que está! Ele salvou a minha vó, salvou todos nós. Você acha que ele faria isso se já estivesse perdido?!"
Mo-tak bufou, descrente, e deu um passo para frente. "Ele está mais forte que qualquer coisa que já enfrentamos! Você não entende? O território é dele agora! Nós não temos escolha."
"Sempre existe escolha!" So Mun gritou de volta, a voz embargada pela mistura de raiva e desespero.
O silêncio seguinte foi quebrado pelo som seco de um impacto: Mo-tak, no auge da irritação, empurrou o garoto com força. So Mun tropeçou alguns passos para trás, quase caindo. Ha-na imediatamente surgiu entre eles, sua expressão séria e gélida.
"Já chega!" disse ela, a voz baixa, mas cortante. Seus olhos estavam fixos em Mo-tak, como se pudesse despedaçá-lo apenas com o olhar.
O ar na sala ficou pesado, ninguém ousou falar. So Mun respirava rápido, o peito subindo e descendo, mas não disse mais nada. Virou-se de repente e saiu, passos apressados ecoando até desaparecer no corredor.
Você trocou um olhar com Ha-na, que, apesar de séria, parecia compartilhar da sua preocupação. Sem pensar duas vezes, seguiu atrás dele.
Bateu suavemente na porta de seu quarto antes de abrir. So Mun estava sentado na beira da cama, os ombros curvados, a cabeça baixa. Quando percebeu sua presença, tentou disfarçar, erguendo o rosto com um sorriso fraco.
"Eu tô bem" disse rápido, como se quisesse convencer a si mesmo. Mas a voz falhou, e os olhos marejados o traíram. E de qualquer jeito, você iria perceber que ele não estava de fato bem, já que, vocês gostam romanticamente um do outro, mas nunca falaram disso e nem sabem se é recíproco.