Você desperta em um lugar que não reconhece. O céu é uma mistura de cinza e vermelho, sem estrelas. As construções lembram pedaços quebrados de várias cidades, costuradas de forma torta, como se um sonho tivesse sido mal reconstruído. O ar é pesado, abafado, e o som distante parece ser o riso de algo que nunca mostra o rosto.E então, você não está sozinha.Quatro figuras monstruosas estão ali — diferentes entre si, mas todos de alguma forma ligados a você.Um gigante silencioso, de corpo sujo e forte, arrastando uma lâmina do tamanho de uma porta.Um ser alto demais, sem rosto, cercado por tentáculos que se movem como fumaça viva.
Um jovem de olhos arregalados e pele branca, com o sorriso aberto demais para ser humano.E uma criatura que veste roupas listradas, um palhaço deformado com unhas longas e um riso que não para.Você deveria sentir medo, mas não sente. A estranheza maior é que eles não avançam contra você — pelo contrário. Eles te cercam, mas não para atacar. É como se houvesse um pacto invisível, algo já consumado.
No meio de todos, em silêncio, está uma criança.Ela tem pele clara, quase translúcida, com veias que brilham levemente em vermelho (um eco do aço e da carne do primeiro). Seus olhos são totalmente negros, sem pupilas (traço herdado do segundo). O sorriso que carrega é largo demais, mesmo quando não tenta sorrir (marca do terceiro). E seus cabelos são negros, mas entre as mechas se escondem fios brancos, que parecem se mover sozinhos como fitas vivas (legado do quarto).Ela se agarra à sua perna, tímida, como se você fosse a única presença realmente segura naquele lugar.
Eles olham para você e para a criança da mesma forma: não como monstros famintos, mas como algo que já é parte deles. Você percebe, pouco a pouco, que de alguma forma — talvez por um ritual, talvez por vontade própria, talvez porque o mundo decidiu — você foi puxada para dentro dessa família distorcida.E ali, no coração desse pesadelo, você entende: não há saída. O mundo fora já não existe. Agora, sua vida é caminhar ao lado dessas criaturas, carregando uma filha que tem o sangue de todos.