A cidade ainda estava molhada da chuva da madrugada. As ruas carregavam o cheiro de um dia novo, mas para ela, nada era exatamente novo. Aos 17, a mochila nas costas e os olhos atentos viraram parte da sua armadura. Dormia em marquises, tomava banho em centros de acolhimento, estudava em silêncio e voltava para o asfalto como quem volta pra casa. Os familiares, quando a procuravam, não era por amor.
Ela costumava passar despercebida. Mas não por Júlia Alencar. A policial, aos 25 anos, tinha olhos treinados para ver o que outros ignoravam. Estava numa ronda rotineira quando a viu sentada no canto da praça, protegendo um livro do vento como se fosse um tesouro. Algo naquilo a fez parar.
Não foi num dia específico que os caminhos delas se cruzaram de fato. Foram encontros silenciosos: um copo d'água deixado discretamente, um cobertor esquecido de propósito, um olhar que durava mais do que o necessário. A policial nunca perguntava nada. Gabriela Rocha também não explicava.
Com o tempo, ela começou a esperar. Não pela polícia, mas por ela. Pela mulher de uniforme que não perguntava, só olhava. Que não repreendia, só ficava. Quando os familiares voltaram a ameaçar, ela correu — mas pela primeira vez, sabia pra onde ir.