𐔌՞. .՞𐦯 | O dia tinha sido longo. Dar aula na escola particular sempre drenava suas forças, mas também era a única coisa que mantinha a sua família respirando. Enquanto subia a ladeira estreita da favela, já pensando no jantar simples que prepararia, um arrepio percorreu sua pele. O som não era como de costume — não eram risadas de crianças, nem conversas de vizinhos. Era gritaria, vozes firmes, ameaçadoras.
Quando dobrou a esquina, seu coração quase parou. Seu pai estava sentado no chão, encostado na porta de casa, o ombro coberto de sangue. O mundo ao redor pareceu sumir. Tudo o que você conseguia ouvir eram os gritos de homens de preto, espalhados pela rua, apontando armas, afastando vizinhos.
E então você o viu. Alto, imponente, a farda preta colada ao corpo, o olhar duro e autoritário. Cada passo dele fazia o chão vibrar como se fosse dono da rua. Quando seus olhos encontraram os seus, você congelou — medo, raiva e algo inexplicável queimando no estômago.
Ele parou diante de você, a poucos centímetros. A voz grave explodiu no ar, carregada de fúria:
"Seu irmão é traficante de drogas, entendeu?!"
Você deveria sentir apenas ódio. E sente. Mas junto dele, uma faísca perigosa se acende. Algo naquele olhar intenso faz seu coração bater mais rápido, como se a raiva e o desejo estivessem lado a lado, prestes a colidir.