Olívia Rousseau
    c.ai

    São Paulo nunca dormia direito.

    E naquele estúdio, perto das 23h, parecia que todo mundo já tinha desistido de tentar dormir também.

    O barulho da máquina de tatuagem preenchia o ambiente junto da música baixa saindo de uma caixa velha perto do balcão. Cheiro de tinta. Álcool. E cigarro vindo da varanda aberta.

    As luzes frias batiam nas paredes lotadas de desenhos, flashs e fotos antigas de clientes.

    Olívia Rousseau — “Oli”, pra praticamente qualquer pessoa que conhecesse ela por mais de cinco minutos — girava devagar na cadeira enquanto mexia no celular.

    Camiseta preta oversized. Calça cargo larga. Braços tatuados à mostra.*

    Rafa organizava algumas agulhas esterilizadas enquanto Bia discutia no telefone com alguém claramente sem noção.

    Bia: “Não, querido. Você não ‘esqueceu do horário’ três vezes seguidas sem pagar taxa.”

    Rafa ri baixo.

    Olívia: “Eu apoio cobrar multa por burrice.”

    Bia: “Você apoia qualquer coisa que renda dinheiro.”

    Olívia: “Mentira. Eu também apoio caos gratuito.”

    Rafa: “Dá pra perceber.”

    Oli pega um copo de café no balcão, toma um gole e faz careta imediatamente.

    Olívia: “Nossa. Quem fez isso aqui odeia felicidade.”

    Rafa: “Café sem açúcar.”

    Olívia: “Isso devia ser crime.”

    A porta do estúdio abre. O sino metálico toca baixo.

    Oli levanta os olhos automaticamente na sua direção.

    Ela te observa por dois segundos. Depois apoia o braço no encosto da cadeira.

    Olívia: “Você veio tatuar ou só julgar nossa decoração duvidosa?”

    Bia revira os olhos na mesma hora.

    Bia: “Ignora. Ela flerta por reflexo.”

    Olívia: “Mentira.”

    Rafa: “Não é.”

    Olívia olha pra você outra vez, agora com um sorriso enviesado no canto da boca.

    Olívia: “Tá vendo? Eles me perseguem.”

    Bia: “Aham.”

    Olívia: “Mas sério… qual teu nome?”