- — “Ele arrancou a barra de aço do beliche. Cortou os braços até ver os ossos. Sem fazer som. Começou a rir. E depois... parou. Ficou ali sentado. Esperando. Como se soubesse que você viria.”
- — “Fica com ele. É o único momento em que ele não tenta morrer.”
- — “Não é coragem... é só cansaço mesmo.”
O cheiro de desinfetante penetra pelas narinas como lâminas finas. O Hospital Psiquiátrico Sablethorn, em Dreymouth, é uma prisão sem grades, onde o tempo apodrece nos cantos das paredes, onde o silêncio pesa mais que qualquer grito. Você está internada ali há semanas — ou meses? — é difícil dizer. O sol nunca atravessa direito aquelas janelas estreitas com películas opacas.
Você já viu gente arrancar os próprios dentes com a unha. Já viu olhos vazios e sorrisos largos demais para serem humanos. Já viu o que a dor crônica faz com alguém quando não é mais sentida, só... carregada. Mas nada, absolutamente nada ali dentro, se comparava à presença dele. Ezren. Prontuário 6-147. Transferido da ala restrita há poucos dias, depois de um incidente no setor de contenção.
Você o viu pela primeira vez sentado no chão do corredor, costas encostadas na parede gelada, o corpo todo encolhido como se estivesse tentando ocupar menos espaço no mundo. As mãos cruzadas, os olhos fixos no próprio joelho, e mesmo assim, ele parecia saber exatamente onde todo mundo estava.
Não havia amizade, mas havia algo entre vocês. Um reconhecimento mútuo. Um silêncio que dizia “você também não pertence aqui, mas também não pertence mais lá fora.” Talvez tenha sido isso que manteve a distância respeitosa entre vocês. Ou o medo. Ezren carregava o tipo de dor que molda ossos, que marca a alma de dentro pra fora.
Na terceira noite após a chegada dele, algo mudou. Você acordou com um barulho seco, metálico. Como uma maca sendo jogada contra a parede. Depois, um grito. Um grito rouco, de alguém que estava engasgando com a própria fúria. E então o som de botas correndo. Portas abrindo. Ordem quebrada. Você se levantou sem pensar. A escuridão do hospital não assustava mais, mas o som... o som mexia com algo dentro de você.
Ao dobrar o corredor da ala 2, viu os enfermeiros saindo do quarto 210. Você passou por eles sem permissão, empurrando a porta do quarto com o coração batendo mais forte que o necessário.
O quarto estava mergulhado numa penumbra amarelada. A lâmpada piscava intermitente como se não quisesse testemunhar o que havia ali dentro. No centro da cama, com o lençol encharcado de sangue nos cantos, Ezren estava sentado, tronco arqueado para frente, os braços estendidos sobre as pernas, os dois completamente enfaixados até o cotovelo. Faixas brancas sobre pele manchada de hematomas.
Ao lado dele, ajoelhado com um cuidado estranho para aquele lugar, estava o Dr. Aldren Vayne. O único médico que conseguia manter Ezren sob controle sem uso de sedativos. Não por força. Mas por alguma conexão inexplicável. Vayne era frio, direto. Mas diante de Ezren, ele se tornava quase... humano. Ele finalizava os últimos nós das faixas com movimentos suaves, como se amarrasse uma lembrança que queria guardar longe.
Ezren não olhou para você. Mas sentiu. Sempre sentia. Sua presença cortava o ar como metal quente em carne viva. O médico terminou o curativo da mão esquerda, levantou-se devagar, passando a mão enluvada pelo jaleco antes de falar.
Você não respondeu. Não porque não havia o que dizer, mas porque tudo que poderia sair da sua boca seria banal demais diante da cena à sua frente. O médico passou por você sem tocar, mas suas palavras ficaram.
E então, o doutor saiu.
Ezren respirou fundo, os ombros tremendo por milímetros. Ainda não olhava para você. Os olhos estavam fixos na parede. As mãos repousavam sobre as pernas, os dedos ocultos sob as bandagens recentes, algumas delas já tingidas de vermelho pálido.
Então ele falou. Sem alterar o tom. Sem fingir ser mais ou menos do que era.