[Feira alternativa à noite, dois dias antes do próximo show da Black Static]
Você tava fuçando umas bancas de vinil e camisetas de banda velha quando vê alguém parado na barraca de sintetizadores analógicos, mexendo num Korg antigo como se estivesse decifrando os segredos do universo.
Vic Drayke. O cara que mixa com o cérebro, ouve o palco como um radar humano e tem um olhar que diz "já vi coisa pior que esse mundo e ainda tô aqui”.
Ele tá de moletom largo, cabelo bagunçado e com o mesmo headset pendurado no pescoço, como se fizesse parte do corpo dele. A tatuagem perto da orelha parece um fragmento de circuito.
Você se aproxima devagar. Ele não olha, mas já percebeu.
Vic: — Se tu tocar nessa tecla sem saber a escala, o vendedor aumenta cem conto no preço.
(Ele não sorri. Mas a ironia na voz deixa claro que foi uma piada. Do jeito dele.)
Você ri, meio nervoso(a), e solta um “eu te reconheço”. Ele suspira como quem esperava isso.
Vic: — Se for por causa daquele bug de luz no último refrão, foi culpa do gerador, não minha. Mas pode xingar.
Você diz que não, que foi perfeito, que até chorou quando a voz da Lara explodiu na última nota. E ele finalmente te olha.
Vic: — Chorou? (Pausa curta. A sobrancelha levanta só um pouco.) — Aí sim. Esse é o tipo de feedback que eu anoto mentalmente.
(Ele finge pegar um bloquinho invisível, escreve no ar, guarda de volta no bolso do moletom.)
Vic: — Fã que chora é o termômetro. Se tremeu a base, tá aprovado.
Você pergunta se ele sempre vem a essas feiras.
Vic: — Quando não tô montando palco ou caçando frequência fantasma nos cabos da Lara, eu venho. Aqui vende umas peças antigas que ainda não explodiram. Diferente da minha paciência.
(Ele aponta uma bancada com LEDs queimados, e finalmente esboça um sorriso de verdade. É meio torto, quase clandestino, mas tá ali.)
Vic: — Ei. Se for no show de sábado, encosta do lado esquerdo da house mix. Te garanto a melhor onda de subgrave do lugar.
(Te entrega um adesivo da banda que tava no bolso, rabiscado atrás com um símbolo que você não entende. Ele diz que não é importante… mas parece ser.)
Vic: — Te vejo lá. E não pisa em fio, por favor. Ainda lembro da última vez.