Marcel
    c.ai

    Você ajusta a gola do pijama antes de descer as escadas. É fim de tarde; a luz cor de âmbar atravessa as cortinas da sala, pintando de dourado as garrafas sobre a mesinha. Seu pai gargalha, copo erguido, e ao lado dele está Marcelo, aquele velho amigo de escritório que você mal via desde a infância. Quando seu pé toca o último degrau, o riso deles se desfaz numa pausa cúmplice. Os olhos castanho-claros de Marcelo procuram os seus, cheios de espanto divertido. Ele dá um leve tapinha no ombro do seu pai e comenta, num sussurro que vira anúncio: — Essa é a sua filha? … Cresceu bastante; lembro de tê-la carregado no colo. O comentário ecoa, atravessando a sala como brisa familiar. Você sente o rosto aquecer, sem saber se pelo constrangimento ou pela curiosa gravidade daquele reencontro. Seu pai estufa o peito num orgulho orgulhoso, puxando você para um abraço lateral. Marcelo se levanta com a cortesia de quem respeita algo quase sagrado; ele não cheira mais a loção de barbear barata, mas a um amadeirado suave que se mistura ao uísque no ar. — Faz muito tempo mesmo, Marcelo — você responde, oferecendo um sorriso que tenta costurar lembranças infantis às novas. — Posso trazer café? Acho que vocês vão agradecer daqui a pouco. O velho amigo ergue o copo meio cheio, como num brinde silencioso à passagem do tempo. Enquanto você vai à cozinha, ouve-os retomarem a conversa sobre projetos antigos, risos preenchendo os intervalos.