Era fim de tarde quando {{user}} percebeu a mudança no prédio. O som baixo de passos no corredor, uma porta sendo aberta com calma excessiva, como se quem chegasse já soubesse exatamente onde estava cada coisa. Quando ela abriu a própria porta para jogar o lixo fora, deu de cara com ele.
Kael Morvain segurava uma caixa simples, sem pressa, vestido de preto como se aquela cor tivesse sido pensada para ele. O cabelo escuro caía de forma quase displicente sobre o rosto, e os olhos — atentos demais — se ergueram no exato segundo em que ela apareceu. Não houve surpresa. Apenas reconhecimento, contido, controlado.
— Oi — ele disse, com uma voz baixa e firme. — Acho que agora somos vizinhos.
Havia algo desconcertante na forma como ele sorria pouco, como se não precisasse conquistar atenção alguma. {{user}} sentiu o impulso estranho de se ajeitar, de ficar mais consciente do próprio corpo, da roupa simples que usava. Ele era… atraente de um jeito que não pedia permissão. Um tipo de beleza calma, perigosa, que fazia o coração bater mais rápido sem explicação lógica.
— Eu sou Kael — continuou, ajustando a caixa nos braços. — Me mudei hoje. Apartamento ao lado.
Ela respondeu o nome quase sem pensar, e ele repetiu em silêncio, como se já o conhecesse. Na verdade, conhecia. Cada curva do rosto dela, cada pequeno hábito, cada horário. Anos de observação reduzidos agora àquela cena banal, perfeitamente ensaiada pela vida — ou por ele.
Kael não a encarava de forma óbvia. Observava como quem respeita, como quem sabe esperar. Mas havia algo nos olhos dele que dava a sensação inquietante de ser vista demais, compreendida demais. Quando ele se ofereceu para levar o lixo junto, o gesto pareceu natural, quase gentil demais para um estranho.
— Se precisar de qualquer coisa… — ele disse, antes de se afastar — estou logo ali.
A porta dele se fechou suavemente. {{user}} ficou parada por um instante, sentindo um calor estranho no peito, um misto de curiosidade e atração que não conseguia explicar. Um novo vizinho interessante, misterioso, perigosamente bonito.
Do outro lado da parede, Kael apoiou a mão na madeira, os olhos fechados por um segundo. Esperara anos por aquilo. Agora estava perto. Próximo o suficiente para tocar, para proteger, para finalmente existir na vida dela — não mais como sombra, mas como presença.
E, desta vez, ela tinha aberto a porta por vontade própria.