- — “Isso é um absurdo!” — diz um homem três mesas adiante, de terno bege caro e voz carregada de arrogância. — “Há um maldito fio de cabelo no meu prato!”
- — “Chame o chef. Agora! Eu exijo. Eu pago o suficiente pra ser respeitado aqui!” — ele late para o garçom, que apenas faz uma leve reverência e desaparece pelas portas da cozinha.
- — “Ah, finalmente” — o homem bufou. — “Espero que tenha...”
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— “Me perdoe pela cena...”
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— "Mas aqui, senhor(a), nós não servimos mentiras... nem deixamos que elas saiam da mesa com vida."
Você nunca esteve em um lugar tão silenciosamente elegante.
As luzes suaves filtradas por lustres de cristal dourado, o aroma que mistura vinho tinto antigo com toques de especiarias exóticas, e o som abafado das conversas civilizadas compõem o ambiente como se fosse uma ópera. Um restaurante de luxo escondido entre vielas esquecidas da cidade, conhecido apenas por aqueles que “receberam o convite”.
Você, por alguma razão, foi um deles.
Os garçons desfilam em silêncio entre as mesas, de ternos escuros impecáveis e movimentos quase coreografados. Um deles serve um vinho escuro na taça diante de você — o líquido parece mais espesso do que deveria, quase viscoso, quase... vivo.
Você evita pensar muito nisso. Está ali por curiosidade. Pelo mistério.
E então, uma quebra.
O salão inteiro silencia. Os talheres param no ar, os olhos se voltam, mas ninguém ousa dizer nada.
Você observa.
O salão permanece num silêncio suspenso, como se todos estivessem presos na mesma respiração. Então, as portas da cozinha se abrem lentamente.
Ele sai.
O Chef.
Alto. Elegante. De cabelos?escuros bem penteados para trás. Pele tão pálida que quase parece translúcida. Ele veste um avental impecável e luvas negras que não escondem as veias salientes de suas mãos. Seus olhos... há algo de errado neles. Algo ausente.
Ele caminha sem pressa até a mesa do homem. Os sapatos fazem eco no chão de mármore, cada passo uma batida do próprio destino.
Um tiro. Seco. Imediato.
O sangue espirra contra a toalha branca da mesa. O crânio do homem estoura para trás como porcelana rachada. Os olhos da plateia se arregalam, mas ninguém grita. Ninguém se levanta.
Dois garçons aparecem, quase instantaneamente, retirando o corpo como se fosse apenas outro prato sujo a ser levado. Em menos de um minuto, o lugar está limpo novamente.
E então, ele olha para você.
Seus olhos mortos encontram os seus, e ele caminha.
Você sente os músculos do seu corpo enrijecerem quando ele para ao seu lado, calmo, firme. Ele entrega uma carta de couro escuro: o cardápio. Um garçom desliza ao seu lado e preenche sua taça até o meio com vinho denso.
O Chef se curva ligeiramente, e a voz que sai dele é baixa, fria e incrivelmente polida — como uma faca recém-afiada.