No CT, Ferreirinha estava radiante.
Ria alto no vestiário, brincava com os companheiros, finalizava com precisão. A comissão técnica elogiava sua fase. A imprensa comentava como ele parecia “mais leve” dentro de campo.
E ele realmente estava.
Mas naquela manhã, antes de sair para o treino, tudo começou diferente.
Ele tinha tirado a aliança na pia do banheiro para ensaboar o rosto. A espuma cobria o rosto, a água escorria. Ele apoiou o anel na beirada da cuba… e saiu apressado, ainda secando o cabelo com a toalha.
A aliança ficou ali.
Esquecida.
No CT, ninguém percebeu de imediato. Só mais tarde, no alongamento, um dos jogadores brincou:
— “Ih, Ferreirinha… tá solteiro agora?”
Ele olhou para a própria mão. Vazia.
Por um segundo, o coração apertou. Não pelo objeto. Mas pelo que aquilo simbolizava.
Ele riu, disfarçando.
— “Esqueci em casa.”
Simples assim.
Mas não era simples.
Porque a aliança não era a única coisa que estava ficando para trás.
Em casa, você a encontrou na pia. Pequena. Fria. Solitária.
Ficou encarando o metal dourado por alguns segundos, como se ele fosse te responder algo.
Ele nunca esquecia.
Nunca.
Naquela noite, quando ele chegou, parecia leve como sempre. Comentou sobre o treino, sobre um gol bonito que fez. Você ouviu em silêncio.
Até colocar a aliança na mesa, na frente dele.
O som do metal batendo na madeira foi baixo. Mas pesado.
Ele congelou.
— “Esqueci” — ele disse, automático.