- — “vem aqui por favor!”
- — “Chegou essa correspondência aqui faz uns minutos. É do morador da cobertura, o Senhor Leonel. Você pode ir lá entregar por favor?, tenho muitas coisas pra fazer aqui em baixo.”
- — “Ele saiu de madrugada pro trabalho — ele e dono de um restaurante fino do centro, acho. Voltou faz umas horas com sacolas grandes. Tava... estranho. Suando, tremendo, mas sorrindo. Sabe aquela calma que parece errada?”
- — “Ah... meu envelope. Que gentil.”
A cidade de Vilaron sempre parece limpa demais. Vidros que nunca têm marcas de dedos. Portões que se abrem sem ruído, com sensores que funcionam antes mesmo de você levantar a mão. Rica, elegante… e um pouco fria. Como se tudo ali tivesse sido projetado para parecer perfeito — mas por dentro, estivesse oco.
Você mora aqui.
No 1206. Um apartamento branco, silencioso, com vista para o centro financeiro e móveis que você nunca escolheu. Não por escolha, mas por um presente. Ou uma dívida.
Seu tio — irmão da sua mãe, um homem formal, de voz baixa e olhos que parecem sempre pesar o que você vale — te deu tudo: o apartamento já mobiliado, a faculdade paga, um cartão de crédito que cobre compras, livros, e jantares que você nunca divide com ninguém.
Disse que era o mínimo, considerando - “o que aconteceu no passado”.
Mas nunca explicou o que, exatamente, aconteceu.
É fim de tarde quando você volta pra casa.
O saguão está vazio. Piso de mármore branco refletindo a luz dourada da hora mágica. As poltronas estão alinhadas como numa vitrine, imóveis. O cheiro, sempre o mesmo — flor artificial, verniz, e algo doce demais, como perfume barato disfarçando algo podre.
Você já se dirige ao elevador quando escuta:
Você se vira.
É o porteiro, senhor Heitor, ofegante. Cabelo ralo colado à testa, camisa clara úmida de suor. Atrás dele, sacolas de supermercado pesadas repousam no chão e uma pilha de correspondências começa a ceder sobre o balcão de granito.
Ele te estende o envelope.
É espesso, envolto em papel escuro, quase azul petróleo. Textura de veludo fino. O lacre de cera vermelha parece recém-feito, ainda brilhante, selado com um símbolo estranho — um espiral cruzado com linhas finas, quase como garras.
Não há nome. Só: "Suíte 31". Escrita à mão com uma caligrafia que mais parece gravada que escrita.
Você segura o envelope com mais força. Ele é pesado demais para ser só papel.
Agradece com um gesto contido e entra no elevador.
Você aperta o botão da cobertura. Ele não costuma funcionar para todos. Mas seu cartão dá acesso — cortesia do seu tio.
O elevador sobe devagar, como se relutasse em alcançar o topo.
E então, o décimo primeiro andar fica para trás.
A porta se abre diretamente para um pequeno hall exclusivo. Tapete escuro, espesso. Duas luzes âmbar piscam levemente sobre a entrada da Suíte 31 — a cobertura. A porta, diferente das demais, é de madeira escura, sólida, com ferragens pesadas.
Você respira fundo e toca a campainha.
Silêncio.
Um clique. A maçaneta gira devagar. E a porta se entreabre.
Leonel aparece.
Não como você esperava.
Ele é mais alto pessoalmente. Camisa social branca parcialmente desabotoada — manchada de vermelho. O tecido ainda úmido nas bordas. Molho? Vinho? Sangue?
Seus cabelos escuros estão presos num coque baixo, com alguns fios caindo soltos. A pele é pálida, mas sem parecer doente. Uma palidez elegante, quase artística. Mas os olhos...
O esquerdo é de um azul muito claro. Quase branco, quase irreal. Gélido. O direito... completamente preto. Sem íris, sem brilho. Uma pedra escura que te observa mesmo sem ver.
A voz é grave, suave, com um sotaque que você não consegue identificar. Cada palavra sai como se ele estivesse saboreando o som.
Ele pega o envelope com extremo cuidado. Os dedos longos, pálidos, tocam o papel como se segurassem algo vivo.
— “Entre,” — ele diz, com naturalidade. — “Não costumo receber visitas. Mas hoje... parece uma boa exceção.”