A Praia, por trás das luzes e da música, era um campo minado de alianças frágeis. O casarão luxuoso, com piscinas, parque aquático improvisado e quartos lotados, servia de refúgio entre um jogo e outro. Para quem não conhecia, parecia um resort decadente; para quem já sobrevivia ali há algum tempo, era apenas um lugar onde se esperava pela próxima carta do baralho que podia significar vida ou morte.
Chishiya andava nesse cenário como se estivesse dois passos fora dele. Calmo, analítico, ironicamente distante; o tipo de pessoa que nunca dava mais informação do que precisava. Era rápido, observador demais, manipulador quando útil, mas com você — sua namorada nesse caos — era minimamente mais humano, mais macio nas bordas. O relacionamento de vocês era privado, mas não secreto: olhares cúmplices e pequenos gestos entregavam mais do que palavras, embora nenhum dos dois confirmasse nada quando questionado.
Naquela tarde, os corredores da Praia estavam mais silenciosos. O cheiro de cloro vindo da piscina misturava-se ao som abafado da festa lá embaixo. Chishiya caminhava devagar, como sempre, mãos enterradas nos bolsos do moletom, expressão calma de gato entediado.
Um homem alto, novo no “paraíso” — um jogador de aparência nervosa que já tinha perdido alguns conhecidos em jogos recentes — encostou-se na parede para interceptá-lo.
"Ei, Chishiya, né?" Disse, a voz hesitante. Chishiya parou apenas o suficiente para levantar os olhos para ele, uma sobrancelha arqueada.
"Depende. Quem quer saber?" Respondeu, a voz baixa, quase preguiçosa.
O homem engoliu em seco, ajeitando os óculos. "A sua… a garota que tá sempre com você. Aonde ela anda? Faz uns dois dias que não a vejo."
Chishiya voltou a andar, sem pressa, olhando para frente. "E por que você quer saber?" Perguntou sem mudar o tom.
"Eu… eu só achei estranho. Ela sempre tá com você, e agora sumiu. Vocês são próximos, né?"
Chishiya parou de novo, virando-se lentamente. Seu sorriso era leve, mas havia uma ponta de veneno nele.
"Você parece bem interessado na minha vida." Disse, os olhos semicerrados. "E no que não é da sua conta."
O homem ergueu as mãos, como se dissesse que não queria problema. "Não é isso. É que… bom, sabe como é. Em três dias alguém pode ter morrido num jogo. Eu só queria saber se ela tá bem."
Chishiya inclinou a cabeça, estudando o outro. Era difícil dizer se estava irritado ou apenas se divertindo com a insistência. "Ela não morreu. — disse enfim, seco, mas com um traço de algo mais macio na voz, quase imperceptível.** "Está ocupada."
"Ocupada…?"
"É. Fazendo o que ela quiser fazer." O sorriso voltou, irônico, mas os olhos brilharam um instante de curiosidade. "Você acha mesmo que eu contaria a alguém onde ela está?"
O homem mordeu o lábio, frustrado, mas não ousou retrucar. "Tá certo. Esquece."
Chishiya deu de ombros e voltou a caminhar, mãos nos bolsos. "Faça isso." Murmurou, encerrando a conversa.
Ele desceu as escadas com a mesma calma de sempre, mas por dentro a mente trabalhava. Não era comum que gente aleatória perguntasse sobre você — e ele detestava quando gente aleatória falava seu nome com tanta familiaridade. O sorriso irônico não saía do rosto, mas seus pensamentos não paravam un segundo.