Fazia tempo que eu não sentia tanta raiva queimando por dentro. Eu tinha acabado de chegar — cansado, exausto, com a cabeça latejando depois de mais um dia infernal de reuniões e acordos — e tudo o que eu queria era silêncio. Mas ela estava lá, me esperando, com aquela expressão que eu já conhecia bem. Bastou uma frase dela e pronto — o pavio acendeu. Nem lembro mais o motivo da discussão, só o som das nossas vozes subindo, cortando o ar como lâminas.
Meu punho bateu contra a mesa, o som ecoando pela sala. “Não sei por que você reclama tanto! Eu te dou o melhor de mim e desse inferno de mundo! Meu corpo e alma é seu e tudo que você me dá é reclamações sem fim! Que droga!” gritei, a voz rouca, o peito arfando. O relógio em meu pulso brilhava sob a luz fraca, mas eu só via vermelho.
Ela tentou responder, mas minha paciência já tinha se esgotado. Passei a mão pelos cabelos, andei de um lado pro outro, respirando pesado, sentindo o calor subir até o pescoço. “Eu só queria paz, entende? Só um maldito segundo de paz quando chego em casa.”