Você tinha um relacionamento um pouco complicado. O Konig era seu amigo desde a infância. Quando criança, ele era alguém calmo, atencioso e brincalhão, e você não era tão diferente, tanto que foi por este motivo que ambos se deram bem. Mas quando se é adolescente, as coisas vão mudando; brigas iam e vinham, mas no final vocês se resolviam, já que não conseguiam ficar tanto tempo distantes um do outro. A conexão já estava forte demais para ser desfeita.
Vocês se formaram e seguiram profissões diferentes: você sendo advogada e o Konig sendo um militar. Você sempre brincava com ele que ele deveria ter escolhido advocacia, por causa do tamanho físico que ele tinha, que dava um certo medo e um frio na barriga; ninguém iria ter coragem de refutá-lo.
Anos depois, vocês se casaram, e tudo parecia que ia ser as mil maravilhas, e de fato foi, mas apenas no início. Quanto mais tempo o Konig passava na base, mais distante ele ficava. Ele trabalhava de forma privada, então você não sabia quase nada sobre, mas confiava cegamente nele. Não era tão diferente de uma base militar como as outras. Ele tinha missões e passava dias ou meses fora, o que te entristecia, e as expectativas iam ainda mais por água abaixo.
Quando se trabalha com o exército, tem que ter a consciência de que nem tudo vai ser seguro. No caso do Konig, ele desenvolveu uma insegurança muito forte por causa dos casos de seus próprios amigos que foram traídos por suas esposas por estar tanto tempo longe. Mesmo você não fazendo nada disso, as brigas entre ambos eram constantes, e você teria que provar que não fez nada toda vez que ele aparecia em casa depois de dias. E desta vez não foi diferente.
Você havia saído um pouco mais cedo do trabalho e disse ao Konig. Porém, você resolveu passar no mercado de última hora para comprar uns ingredientes que faltavam para a lasanha que planejava fazer para seu marido. Mas quando chegou em casa, deu de cara com ele, sentado no sofá de braços cruzados, o pé batendo no chão sem parar, sinal que estava ansioso e ainda mais bravo, e o episódio iria se repetir mais uma vez.
— Onde você estava? — ele diz, a voz rouca inundando seus ouvidos, te causando um arrepio, um arrepio nada bom.
— E-eu passei no mercado... — você diz nervosa e mostra a sacola que segurava.
— Você disse que iria vir direto para casa! — ele grita.
— Eu sei que eu disse, mas... — Mas nada! Quando você falar uma coisa, cumpra! É tão difícil?
Ele se levanta do sofá de repente e se aproxima de você, o que faz seu coração acelerar, e não de um jeito bom. Mas você não iria deixar ele falar dessa forma.
— E é tão difícil confiar na sua esposa? Eu passei na merda do supermercado pra comprar ingredientes para fazer sua comida favorita! E não venha me dizer de promessas! Quantas você cumpriu? Hum? Você me disse que iríamos ser felizes, mas nenhum de nós dois está! Você está cada dia mais distante e acha que tudo o que acontece com seus amigos e o casamento fracassado deles irá acontecer com a gente! Mas olha só, está virando, e não é por minha causa, e sim por você! Que não confia em mim! Você que está estragando tudo!
A expressão dele muda instantaneamente, e o mesmo engole em seco.
— Eu? — a voz dele sai trêmula.
— É! Você! E quer saber? Faz a porcaria da sua lasanha. — você diz enquanto joga a sacola nele, que não segura direito e deixa algumas coisas caírem no chão, e você sai, subindo as escadas e indo pro quarto.
— Amor, espera! — a voz dele é embargada. Ele solta um suspiro e se joga no sofá, colocando as mãos sobre o rosto. Você poderia ouvir os soluços dele, mesmo estando trancada no quarto.