O sol começava a se esconder atrás dos pinheiros da Geórgia, pintando o céu de tons laranja e roxo que nada tinham de romântico. Era apenas mais um dia sobrevivido. Para Daryl Dixon, era a única coisa que importava. Sobreviver. Ele movia-se com a eficiência silenciosa de um predador, sua besta firmemente empunhada, os olhos constantemente varrendo a paisagem decadente. O mundo cheirava a podridão, morte e terra molhada.
Ele estava vasculhando uma velha cabana de madeira, a porta arrombada há muito tempo, quando um som o fez congelar. Não era o gemido gutural de um caminhante. Era um soluço contido, abafado, seguido de um rangido de madeira.
Seu rosto, já naturalmente fechado, tornou-se uma máscara de desconfiança. Pegou a besta com mais força e contornou a cabana, seus passos não faziam mais barulho que o vento. Lá atrás, anexo à construção principal, havia um galinheiro velho. A porta estava levemente entreaberta.
Com um movimento brusco, ele empurrou a porta de madeira podre.
Lá estava ela.
Encurralada no canto mais distante, sentada na palha suja, com os joelhos dobrados contra o peito. Uma garota. Seus longos cabelos loiros e ondulados estavam emaranhados e sujos, mas pegos por um raio de luz que entrava por uma fresta, pareciam um halo desfeito. Sua pele era pálida, quase translúcida de medo. Olhos castanhos enormes, da cor de chocolate derretido, estavam cheios de lágrimas que teimavam em não cair, fixos nele com um pavor que era quase palpável. Ela tremia, e mesmo assim, havia uma doçura em seus traços, uma inocência vulnerável que parecia completamente deslocada naquele inferno.
Daryl baixou a besta um centímetro, mas sua expressão não se alterou. Seus olhos azuis, frios como gelo, percorreram rapidamente o galinheiro, procurando por ameaças, por armadilhas. Era uma isca? Uma coisa daquelas não deveria ter sobrevivido sozinha.
— Sai daí — sua voz saiu áspera, um rosnado de desconfiança.
Ela estremeceu, encolhendo-se ainda mais. Seus lábios tremeram, mas nenhum som saiu. Ela apenas balançou a cabeça, negativamente, os olhos se enchendo de mais pânico.
Daryl franziu a testa, irritado. Não tinha tempo para isso. —Não vou repetir. Sai. Agora.
— E-eles… — a voz dela finalmente saiu, um sussurro suave e melódico, quebrado pelo medo. — Tem mais lá fora.
Ele entendeu. Ela não estava se escondendo dele. Estava se escondendo dos caminhantes. Com um grunhido, ele deu um passo para trás, permitindo que ela saísse. Ele não estendeu a mão para ajudar.
Ana, movendo-se como um cervo assustado, levantou-se. Ela era curvilínea, mas magra pela fome, e parecia frágil o suficiente para quebrar com um vento mais forte. Ela saiu do galinheiro, esfregando os braços, evitando seu olhar.
— Onde tá o seu povo? — ele perguntou, os olhos continuando a vasculhar a floresta ao redor.
— Mortos — a resposta foi um sopro quase inaudível. — Todos.
Daryl cerrou o maxilar. Era a história de todo mundo. Não era novidade. Mas algo na maneira como ela disse, com uma resignação tão profunda e triste, fez uma pontada incomum cutucar seu peito. Ele ignorou.
— Você tem alguma coisa? Água? Arma?
Ela sacudiu a cabeça, e uma lágrima finalmente escapou, rolando pela sua face suja e deixando um sulco limpo no caminho. O gesto era tão puro, tão genuinamente desamparado, que Daryl sentiu uma contração estranha no estômago. Ele resmungou algo ininteligível, pegou sua garrafa de água quase vazia e a estendeu para ela, sem olhar diretamente.
— Bebe. Só um gole.
Ela pegou a garrafa com mãos trêmulas, bebeu um pequeno gole e devolveu, como uma criança obediente. —Obrigada.
Foi quando o primeiro gemido ecoou. E depois outro. Três figuras cambaleantes surgiram da linha das árvores, atraídas pelas vozes.
Ana deu um passo instintivo para trás, diretamente na direção de Daryl. Seu corpo quente e tremendo encostou brevemente no braço dele, e ele sentiu o choque do contato. Ela cheirava a medo, suor e… jasmim. Um resto de um mundo que não existia mais.
— Fica atrás de mim — a ordem saiu mais por instinto de sobrevivência do que por cavalheirismo.