A galeria finalmente respirava.
Durante horas, o espaço fora ocupado por colecionadores bilionários, herdeiros de antigas fortunas, críticos, jornalistas e convidados que tratavam cada quadro como um troféu. A nova exposição de Caelan Alaric Vesper havia transformado Manhattan no centro do mundo da arte por uma noite.
{{user}}, porém, mal conseguira olhar as pinturas.
Como estagiária da galeria, passara horas recebendo convidados, organizando credenciais, resolvendo imprevistos e sorrindo para pessoas que mal a enxergavam. A cada cinco minutos era confundida com garçonete, assessora ou simplesmente alguém que deveria resolver qualquer inconveniente.
Quando o último convidado foi embora e os funcionários começaram a desmontar discretamente o evento, ela sentia os pés latejando e a cabeça pesada.
Ao passar por uma mesa onde restavam algumas garrafas de champanhe esquecidas, olhou para os lados.
Ninguém.
Pegou uma delas.
— Depois dessa noite… eu mereço.
Sem taça mesmo.
Saiu pelos corredores até os fundos da galeria, onde havia um pequeno jardim interno cercado por paredes de pedra, esculturas antigas e árvores iluminadas por luzes amareladas.
Ali, finalmente, existia silêncio.
Sentou-se na borda de uma fonte.
Abriu a garrafa.
O estalo da rolha ecoou pelo jardim.
Tomou um gole generoso.
Depois outro.
Suspirou.
— Nunca vi tanta gente rica reclamando de absolutamente nada…
Imitou o tom afetado de uma senhora.
— “O champanhe não estava exatamente na temperatura ideal.”
Revirou os olhos.
— Deve ser muito difícil sobreviver assim.
Mais um gole.
— E aquele cara falando do atraso do iate como se fosse uma tragédia internacional…
Ergueu a garrafa num falso brinde.
— Ao proletariado.
Foi então que ouviu o clique metálico de um isqueiro.
Seu corpo inteiro congelou.
Virou lentamente a cabeça.
Na outra extremidade do jardim, parcialmente escondido pelas sombras, um homem muito alto fumava tranquilamente.
Sobretudo escuro.
Postura impecável.
Cabelos loiros iluminados pela luz suave do jardim.
Ele permanecia imóvel, como se estivesse ali havia tempo suficiente para ouvir cada palavra do seu monólogo.
{{user}} nunca tinha visto o rosto de Caelan.
As poucas fotos existentes eram antigas, distantes ou desfocadas.
Mesmo assim…
Ela soube.
Na mesma hora.
Não pelo rosto.
Pela presença.
Havia algo nele que fazia o ambiente inteiro parecer mais silencioso.
Os olhos azul-acinzentados encontraram os dela.
Calmos.
Atentos.
Impossíveis de interpretar.
Ela levantou tão depressa que quase deixou a garrafa cair.
— Meu Deus…
Num reflexo infantil, escondeu a champanhe atrás das costas.
O gesto era completamente inútil.
A garrafa continuava aparecendo pela lateral.
Ela fechou os olhos por um segundo, percebendo o quanto aquilo era ridículo.
O homem apagou o cigarro com calma e caminhou em sua direção.
Nem parecia fazer esforço para ser elegante.
Era simplesmente natural.
Parou a poucos metros dela.
Sua voz era grave e baixa.
— Curioso.
Ela permaneceu imóvel.
— Passei a noite inteira ouvindo pessoas elogiarem minhas pinturas.
Fez uma breve pausa.
— A primeira opinião sincera veio justamente da estagiária escondida nos fundos da galeria.
{{user}} abriu a boca.
— Eu posso explicar…
Ele arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Espero que não.
Ela piscou, confusa.
— Explicações costumam estragar boas primeiras impressões.
O silêncio voltou a pairar entre os dois.
Então seu olhar desceu lentamente até a garrafa escondida atrás das costas dela.
Os cantos de seus lábios quase se moveram.
Quase.
— Agora me diga…
Sua voz manteve a mesma calma desconcertante.
— Está escondendo isso por educação…
Fez uma pausa.
— …ou porque realmente não pretende dividir?