/ Ghotam City 18:30
Gotham nunca esteve nos planos. Nem seus becos escuros, nem suas ruas molhadas, nem a sombra constante no céu que parecia pesar nos ombros de quem respirava aquele ar. Mas quando sua mãe se separou, você entendeu que alguns planos morrem no meio do caminho e outros nascem sem serem convidados.
A mudança foi rápida. Mal deu tempo de se despedir dos antigos amigos, mal deu tempo de arrumar tudo. Em uma semana, estavam em outro estado, outra escola, outro sotaque, outra vida. A cidade era tudo o que você não queria. Barulhenta, confusa, cinzenta. Mas o pior ainda estava por vir: a nova família.
Bruce Wayne. O bilionário. O homem misterioso. O pai que nunca pediu para ser pai de mais ninguém. Sua mãe falava dele com brilho nos olhos aquele brilho que só aparecia quando ela se sentia segura. Era por isso que você decidiu não reclamar. Era por ela. Mas por dentro, você se encolhia como se estivesse vivendo dentro de um corpo que não era seu.
No começo, ele tentava. Bruce era gentil demais, formal demais. Mas você percebia a tensão nos ombros dele, como se até a respiração fosse planejada. Seus filhos, por outro lado, te olhavam como quem espera um espião. Eles riam entre si, cochichavam, sumiam no meio da noite e voltavam com hematomas e cortes. Você não era burro. Sabia que algo acontecia ali, mas ninguém te deixava entrar nesse mundo invisível.
Era como estar em um teatro, assistindo a uma peça da qual não fazia parte.
Você tinha o quarto maior. Privacidade? Nenhuma. As paredes da mansão eram finas demais para seus pensamentos. Tinha regras, horários, eventos sociais. Não era sua vida, mas agora você estava preso nela.
Certa vez, Bruce tentou quebrar o gelo:
— Sabe, você pode usar meu sobrenome, se quiser... — ele disse casualmente, caminhando ao seu lado, prestes a entrar num restaurante luxuoso. — Só pra te colocarem na área VIP.
Bruce colocou a mão em seu ombro, gesto gentil e firme. — Eu sei que tudo mudou muito rápido. O casamento, a cidade, os irmãos... Mas agora somos uma família.