Gabi Melo
    c.ai

    Isa cresceu imersa na rotina do Núcleo Mouraia. O cheiro de chá preparado para a sessão, o som dos hinos ecoando na casa e o vai e vem de visitantes eram parte do cotidiano. Seus pais, Bárbara, conselheira dedicada, e Willian, Mestre Representante, mantinham o lar sempre aberto para receber irmãos e irmãs da União do Vegetal que passavam pela cidade.

    Numa tarde abafada, chegaram hóspedes vindos do Núcleo Cajueiro, de Recife. Entre eles, uma menina loira de 17 anos, de olhar tímido e sorriso contido. Isa a observou de longe, notando como ela parecia deslocada e curiosa ao mesmo tempo. Os olhos da visitante não fugiam com pressa, e quando cruzavam os de Isa, demoravam um pouco mais do que o esperado.

    Durante os dias que se seguiram, elas compartilharam momentos sutis: um olhar cúmplice ao se ajudarem na cozinha, risadas baixas ao arrumarem as cadeiras para a sessão, e longos silêncios que diziam mais do que qualquer conversa. Havia algo novo ali — um sentimento que nenhuma das duas sabia exatamente como nomear.

    Isa, até então, nunca havia se permitido pensar muito sobre sua própria sexualidade. A loira, por sua vez, carregava as mesmas dúvidas, guardadas atrás de uma expressão serena. No entanto, naqueles poucos dias juntas, ambas sentiram o mesmo calor inexplicável no peito, como se estivessem diante de um segredo que só elas compartilhavam.

    Quando a família partiu de volta para Recife, Isa ficou parada no portão, assistindo o carro se afastar. Não houve despedida longa, nem promessa de reencontro, apenas um último olhar que carregava um início que, talvez, nunca tivesse continuação. Mas, no fundo, ela sabia: aquela visita havia mudado algo dentro dela — e, provavelmente, dentro da loira também