O som do público vibrava como trovões atrás das paredes de concreto. O corredor cheirava a suor, metal e fita adesiva — o cheiro típico de medo e de sonho prestes a ruir. Edgar se aquecia, os músculos rígidos, o coração em descompasso. Era sua primeira luta amadora, e cada respiração parecia uma contagem regressiva para o inevitável.
Um funcionário apressado lhe estendeu um maço de papéis. — “Assine aqui, garoto. Termo de responsabilidade e direitos da luta.”
Ele assinou sem ler, tremendo. As letras miúdas e os selos dourados não significavam nada naquele momento — só mais burocracia. Mas, no final daquele contrato, em letras quase ilegíveis, estava escrito:
“Em caso de derrota, todos os direitos civis, bens materiais e rendimentos futuros serão transferidos ao campeão vencedor.”
Edgar estava de cabeça baixa, ajustando as luvas, quando a temperatura do corredor pareceu cair. Um silêncio pesado tomou conta do ambiente.
Quando levantou os olhos, ele estava lá.
Oliver Vane.
Gigantesco. O corpo coberto apenas por o roupão negro do patrocinador, o capuz abaixado, o olhar fixo e predador. Os olhos — frios e dourados — fitaram Edgar com uma curiosidade sombria, como quem avalia um animal prestes a ser abatido.
Oliver caminhou lentamente até ele, o som dos passos ecoando como batidas de tambor. Parou a menos de um metro, curvando-se ligeiramente, o rosto próximo o bastante para que Edgar sentisse o calor de sua respiração.
— “Você é o estreante?”
A voz era grave, arranhada, com um sotaque arrastado que fazia cada palavra vibrar.
Edgar apenas assentiu, engolindo seco.
Oliver sorriu — um sorriso sem humor.
— “Não se preocupe. Eu não costumo matar na estreia dos outros.”
Ele tocou de leve no queixo de Edgar com o nó dos dedos da luva, levantando-lhe o rosto.
— “Mas... quero ver até onde aguenta antes de cair.”
E então se afastou, deixando para trás um rastro de perfume amargo, misto de couro e pólvora. Edgar ficou imóvel, sentindo as pernas falharem. Não sabia se o que sentia era medo, raiva... ou algo mais perigoso: fascínio.
Quando chamaram seu nome, Edgar caminhou para o ringue como quem entra em um campo de execução. As luzes o cegaram, o público rugiu, e o narrador anunciou:
— “Em seu primeiro combate na categoria amadora, Edgar Monteiro!”
Mas quando o nome do adversário ecoou — — “E seu oponente invicto... o colosso... Oliver Vane!” — o estádio inteiro pareceu estremecer.
Oliver entrou sob uma tempestade de flashes. Cada passo firme, cada músculo sob o brilho das luzes, exalava domínio absoluto. E quando seus olhos se cruzaram novamente, no centro do ringue, Oliver sussurrou — sem microfone, baixo o bastante para só Edgar ouvir:
“Bem-vindo ao fim, pequeno.”
O gongo soou. O inferno começou.
O primeiro golpe veio como um trovão. O segundo, como uma explosão. E o terceiro, como o golpe final de um deus cruel.
Edgar tentou lutar, tentou resistir, mas cada movimento era engolido pelo poder bruto de Oliver. O som dos socos misturava-se ao rugido da multidão, e o sangue no chão refletia as luzes como pequenas brasas.
Quando caiu, mal viu o árbitro contar. E, antes de tudo apagar, a última coisa que ouviu foi a voz dele — calma, grave, e terrivelmente clara:
“Levem Edgar comigo. Ele é meu prêmio.”
Quando despertou, o mundo já era outro.
O teto era alto, o ar cheirava a perfume caro, e os lençóis eram de seda. O corpo doía, envolto em ataduras, e sobre a mesa, um documento aberto mostrava as palavras que ele nunca lera antes: “Transferência de Propriedade: Oliver Vane.”
*A porta se abriu. E lá estava ele — Oliver — com uma toalha na cintura, o cabelo ainda úmido, a pele marcada por cicatrizes e brilho de vitória. Seu olhar era intenso, possessivo, queimando Edgar como se o estudasse.k
“Você devia ter lido antes de assinar, pequeno,” — disse, aproximando-se devagar.
“Você é meu, apenas meu Literalmente em outras palavras vc é meu esposo e eu seu esposo"