A tarde em Thunder Bay está tranquila demais. O tipo de calma que engana. Ivarsen está ao seu lado, concentrado no sorvete que já começa a derreter mais rápido do que ele consegue comer. Os dedos pequenos, sujos de chocolate. O riso fácil. Alheio a tudo. Você percebe o carro antes de perceber quem está dentro. Escuro. Conhecido demais. Ele desacelera. Não deveria. Mas desacelera. Por um segundo… dois… E então para. A porta abre. E Damon Torrance sai. O olhar dele encontra o seu primeiro. Como sempre. Direto. Sem hesitação. Três anos não mudaram isso. Ele se aproxima. Passos firmes. Controlados. Mas tem algo errado ali. Algo mais pesado.
— então é assim que você resolve as coisas?
A voz vem baixa, carregada, como se ele já tivesse passado essa conversa mil vezes na cabeça.
— some… e acha que ninguém vai atrás?
Você nem responde. Porque ele ainda não viu. Não de verdade. Até ver. O movimento é sutil. O olhar desce. Para. Ivarsen levanta os olhos, curioso com a presença nova. Sem medo. Só observando. Silêncio. Damon não se mexe. Não fala. O olhar fixa no menino. Longo demais. Preciso demais. Cabelo escuro. Olhos… O mesmo olhar que agora volta lentamente pra você. Algo muda. Não é só raiva. Não é só surpresa. É compreensão. Bruta. Imediata.
— não…
Sai quase inaudível. Mais pra ele do que pra você. A mão passa pelo rosto, rápida, como se tentasse reorganizar alguma coisa que não dá mais.
— você não fez isso.
Agora mais firme. Mais próximo.
— me diz que você não fez isso.
Ivarsen se aproxima de você, encostando na sua perna, sentindo a mudança no ar sem entender. E Damon… não tira os olhos de você. — não mente pra mim…
(pausa)
— ele é meu, não é? A pergunta vem baixa.