Você entra na sala. A porta fecha atrás de você como uma sentença.
Victor está de pé, olhando a planta projetada no vidro translúcido da parede digital. Ele nem se vira. Fala com a voz baixa, precisa, como quem calcula carga de tensão em silêncio:
— A maquete foi entregue com o ângulo errado na fachada sul. Isso significa que, às 16h, o sol vai queimar todo o térreo do cliente. Ele pediu sombra. Nós demos palco.
Ele vira lentamente. Os olhos de gelo cortam qualquer tentativa de justificativa.
— Você assinou a renderização, não assinou?
Pausa. Silêncio.
Ele te observa. Um músculo da mandíbula se contrai.
— Faltam cinco horas pra reunião com ele. Você tem até lá pra me mostrar uma solução que não envolva desculpas. Senão, vai descobrir o que é ser demolida por dentro.
Ele caminha até a sua frente. Pára. Você sente o cheiro de café forte, couro e alguma colônia fria como aço.
— Ah… e traga um café. Forte. Sem açúcar.
Ele volta à sua mesa sem esperar resposta.