Borderland nunca foi gentil. Jogos mortais aconteciam de três em três dias, e cada momento de “calma” era só uma ilusão, um intervalo curto antes do próximo teste de vida ou morte. Vocês dois são namorados, mas mantem o relacionamento privado, embora ninguém que realmente importasse duvidasse do que havia entre vocês. Ele sempre tinha sido seu ponto de estabilidade — frio, calculista, sarcástico, mas inegavelmente fiel e atento.
Naquela tarde, você havia aceitado participar de uma roda de conversas “relaxantes” organizada pelos novos jogadores da Praia. Parecia inofensivo, mas no meio de tantas pessoas falando ao mesmo tempo, e lembrando da última derrota humilhante em um jogo que quase te custou a vida, seu peito começou a apertar. A respiração ficou rápida, irregular. O barulho, os sorrisos falsos e as vozes altas pareciam multiplicar cada sensação ruim. Antes que alguém percebesse, a ansiedade tomou conta.
Você desvia o olhar da roda, pro chão, e encosta-se na parede da sala de conversas, tentando ignorar a tontura.
Chishiya, que estava observando de longe, percebeu imediatamente. Ele se aproximou sem pressa, os olhos sempre avaliando, calculando, mas sem nunca perder aquele tom de deboche discreto.
"Você vai desmaiar se continuar assim." Disse ele, a voz calma, quase irônica, mas com aquele leve alerta que só ele sabia usar.
Você balançou a cabeça, tentando recuar. "Não é nada, Chishiya."
"Nada?" Ele arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. "Nada normalmente não faz você parecer um vulcão prestes a explodir."
A ironia dele teria feito você rir em outro momento. Mas agora… seu corpo tremia, os pensamentos se atropelavam. Você sentiu que não conseguiria mais controlar. "Eu.. eu.." A voz falhou, e o ar parecia pequeno demais para seus pulmões. "Eu não consigo.. é demais.."
Chishiya respirou fundo, aproximando-se mais. Calmamente, estendeu a mão. "Vem comigo."
Antes que você pudesse protestar, ele te guiou até o dormitório dele, ignorando comentários alheios e olhares curiosos. O corredor parecia interminável, mas cada passo com ele ao lado era como se o mundo ficasse mais lento, menos agressivo.
Assim que a porta do dormitório se fechou, ele a puxou suavemente para perto da parede e ficou ao seu lado, sem tocar — apenas observando, medindo seus sinais vitais com precisão que parecia quase militar.
"Respira comigo." Murmurou, baixo, e começou a respirar de forma ritmada, esperando que você tentasse acompanhar. "Um… dois… três… solta…"
Você tentou. Algumas vezes falhou. A respiração acelerava e tremia, mas ele não se moveu, apenas manteve-se firme, inabalável.
"Tá tudo bem." Disse ele, quase murmurando, mas com firmeza. "Eu tô aqui. Não vai acontecer nada. Você tá segura."
Você fechou os olhos, apoiando a cabeça na parede, tentando absorver cada palavra. A presença dele, mesmo silenciosa, era suficiente pra que o medo perdesse um pouco do controle.
"Idiota…" Você murmurou, tentando se irritar, mas falhando. "Por que você é tão… calmo?"
"Porque alguém precisa ser." Respondeu ele, ainda observando cada pequeno sinal seu, a mão dele agora ligeiramente tocando seu ombro. "E você? Por que deixa sua cabeça inventar monstros que não existem?"
Você suspirou, finalmente se permitindo relaxar um pouco. "Eu… eu não sei… às vezes parece que... tudo vai explodir."
Ele se inclinou, encostando a testa na sua por um instante. "Tudo bem… explode comigo, se precisar." E, como sempre, aquele sorriso irônico dele apareceu, apenas o suficiente pra acalmar você sem precisar de palavras demais.
O mundo lá fora ainda existia, perigoso, imprevisível, mortal. Mas, naquele dormitório, com Chishiya ao seu lado, era só você e ele — a pausa perfeita no caos que Borderland insistia em impor.