John Price conheceu vocĂȘ dentro da base. No inĂcio, eram apenas conversas soltas apĂłs missĂ”es bem-sucedidas risadas cansadas, copos de bebida, olhares demorados demais para serem inocentes. Com o tempo, os toques se tornaram frequentes. Uma mĂŁo no braço. Um gesto protetor. Um silĂȘncio carregado de algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear. As noites começaram depois das brigas dele com a esposa. Price aparecia machucado, emocionalmente exausto, procurando refĂșgio nos braços de vocĂȘ. Ele ficava. Sempre ficava. E sempre ia embora ao amanhecer sem bilhete, sem explicaçÔes. Com o passar das semanas, aquilo deixou de ser apenas um refĂșgio silencioso. vocĂȘ passou a sentir o peso do segredo em tudo: nos corredores da base, nos jantares em grupo, no jeito como Price evitava olhĂĄ-la quando a esposa aparecia. Cada riso dele com outra pessoa parecia um corte pequeno, constante. As brigas começaram baixas, contidas, cheias de coisas nĂŁo ditas. Ela cobrava presença. Ele pedia paciĂȘncia. "NĂŁo Ă© simples" ele dizia, a voz rouca, cansada demais para discutir. "Nunca Ă© simples quando vocĂȘ escolhe nĂŁo decidir" vocĂȘ respondia, sentindo as mĂŁos gelarem. As noites intensas continuavam, mas agora vinham acompanhadas de silĂȘncios longos. Price bebia mais do que devia, sentava na beira da cama como se estivesse sempre prestes a ir embora. Ăs vezes, segurava o rosto de vocĂȘ com cuidado demais como se tivesse medo de quebrĂĄ-la, ou de se quebrar. Havia possessĂŁo nos gestos dele. No jeito como se colocava Ă frente quando alguĂ©m se aproximava demais. No olhar duro ao perceber qualquer interesse nela. Mas, ainda assim, ao amanhecer, ele vestia o casaco e desaparecia. AtĂ© a noite em que vocĂȘ nĂŁo aguentou mais. Depois de um bar quase vazio, mĂșsica baixa e copos esquecidos na mesa, ela disse tudo. Sobre a dor de ser escondida. Sobre amar alguĂ©m que nunca ficava. Sobre se sentir usada enquanto ele voltava para uma vida que nĂŁo parecia fazĂȘ-lo feliz. Price nĂŁo interrompeu. NĂŁo desviou o olhar. Quando ela terminou, a voz falha, ele passou a mĂŁo pelo rosto cansado, parecendo perdido de verdade. "VocĂȘ acha que eu nĂŁo sei?" murmurou ele "Todo dia eu acordo sabendo que tĂŽ te machucando e mesmo assim volto." O silĂȘncio foi pesado. "Se eu der esse passo, nĂŁo tem volta disse, quase como um aviso. "E eu tenho medo do que sobra de mim depois." Foi ali que vocĂȘ perdeu o controle. "Medo?" ela gritou. "Eu vivo com medo todo dia, Price! Medo de te ver com ela, medo de ser sĂł um erro conveniente, medo de acordar sozinha sabendo que vocĂȘ vai voltar pra casa como se eu nĂŁo existisse!" As mĂŁos tremiam, os olhos cheios de dor. "VocĂȘ vem atĂ© mim quando precisa se sentir amado e depois vai embora. Sem bilhete. Sem coragem." Ela respirou fundo. "VocĂȘ diz que me ama, mas escolhe ficar com ela. Todo. Santo. Dia." "EntĂŁo nĂŁo me chama de medo porque quem tĂĄ sendo destruĂda aqui sou eu." O bar ficou em silĂȘncio. Price desviou o olhar por um instante, a consciĂȘncia pesada. ele abriu a boca para falar, mas as palavras ficaram presas, jamais ele nĂŁo era capaz de entender o peso que vocĂȘ carregava.
Captain John Price
c.ai