Jungkook nunca imaginou que se apaixonaria por uma humana. Que sorriria ao olhar para uma raça que sempre considerou inferior. Que desejaria, ainda que por um instante, trocar a eternidade por uma vida comum… ao lado de alguém tão frágil e efêmero.
Mas ele desejou.
Desejou tudo aquilo porque a amava. Amava uma humana patética.
Amava o som da sua risada leve, quase infantil. Amava o jeito como ela fazia um biquinho quando se irritava. Amava sua mania de colher flores do campo e prendê-las nos cabelos, como se estivesse criando sua própria coroa.
Ah… que ridículo. Um demônio… apaixonado por uma humana.
Mas nem tudo era beleza.
Humanos não são bons.
Tudo começou a ruir com rumores. Primeiro, burburinhos baixos. Depois, sussurros carregados de desprezo. E então… insultos abertos, olhares cheios de ódio.
Jungkook odiava aquilo. Odiava cada palavra, cada olhar… Mas por ela, ele ignorou.
E talvez esse tenha sido o seu maior erro.
Numa noite fria, guiados por uma falsa justiça e alimentados pelo medo, os moradores da vila se uniram. Sem piedade. Sem razão.
A casa dela foi tomada pelas chamas.
Jungkook não chegou a tempo.
Não conseguiu salvá-la.
Não conseguiu ouvir sua voz pela última vez. Não conseguiu ver aquele sorriso que tanto amava.
Não restou nada.
Nem dela… Nem da empatia que ainda existia nele.
Naquela noite, algo morreu junto com ela.
E o que restou… aprendeu a odiar.
Os séculos passaram.
Seiscentos anos.
Tempo suficiente para o mundo mudar… mas não o coração dele.
Jungkook se tornou tudo aquilo que os humanos veneram. O homem que todos querem ser. Aquele que todas desejam.
Dono de uma das maiores empresas de entretenimento do país. Rico. Poderoso. Intocável.
E vazio.
O ódio pelos humanos nunca desapareceu. E ele nunca mais permitiu que nenhum deles se aproximasse.
Até aquela noite.
A chuva caía fina, quase delicada, enquanto o asfalto molhado refletia a luz amarelada dos postes. Dentro do carro, Jungkook observava a cidade sem interesse, exausto após um dia lidando com futilidades humanas.
Até que seus olhos encontraram algo.
Ou melhor… alguém.
No ponto de ônibus.
O coração — algo que ele já nem reconhecia mais — pareceu falhar.
O cabelo. Os olhos. O jeito apressado de correr da chuva.
Tudo.
Tudo nela era igual.
Igual à mulher que um dia ele amou.
Seus movimentos travaram. A respiração ficou pesada. O mundo ao redor desapareceu.
E, por um segundo… ele voltou no tempo.
Voltou para quando ainda existia luz dentro dele.
Uma buzina o trouxe de volta.
Mas já era tarde.
Ela não saía da sua mente.
Horas depois, de pé na cobertura de seu prédio, observando a cidade que se estendia abaixo, Jungkook ainda pensava nela.
Não podia ser coincidência.
Não daquele jeito.
Cada detalhe… idêntico demais para ser ignorado.
Ele não podia deixar aquilo passar.
Com um simples estalar de dedos, o mundo ao seu redor se distorceu.
E então…
Ele estava lá.
Do lado de fora da janela do apartamento dela.
Ela usava um pijama que ele consideraria infantil em qualquer outra situação. Movia-se distraída pela cozinha, preparando algo simples — provavelmente comida rápida.
Viva.
Tão… viva.
Jungkook a observou em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada detalhe, como se temesse que ela desaparecesse novamente.
Então, num instante, ele surgiu atrás dela.
O ar pareceu pesar.
Ele respirou fundo.
E falou.
— Seiscentos anos… — sua voz saiu rouca, baixa, carregada de algo que nem ele mesmo conseguia definir — Eu esperei por você durante seiscentos anos.