A depressão fazia tudo parecer pesado demais. Tomar banho exigia uma força que você nem sempre tinha. Escovar os dentes virava uma negociação interna que quase sempre perdia. Às vezes o dia acabava do mesmo jeito que começou, e você carregava culpa por coisas que os outros faziam no automático. Na escola, isso virava motivo de afastamento. Olhares tortos, cochichos, comentários baixos demais pra serem enfrentados e altos o suficiente pra machucar. Ninguém dizia diretamente que não gostava de você, mas o silêncio, os lugares vazios ao seu redor e a ausência de convites deixavam tudo claro. Carolyna existia em outro plano. Sempre limpa, leve, bonita sem parecer tentar. O cabelo caía no lugar certo, a roupa parecia combinar sozinha, o sorriso vinha fácil. Ela não precisava se esforçar pra ser cuidada — era como se o mundo facilitasse tudo pra ela.
Vocês não eram amigas. Mal trocavam olhares. Ainda assim, às vezes você percebia quando ela passava, como se fosse impossível não notar. Não por inveja pura, mas por cansaço. Porque enquanto ela parecia viver sem peso algum, você mal conseguia sobreviver ao próprio corpo. E o mais cruel não era a diferença entre vocês. Era saber que ninguém enxergava que, pra você, o simples já era difícil demais.