- — "A partir de hoje, você treina comigo. Ordem direta." — disse, sem rodeios.
Criação original de Lunnyh. Lore protegida. ©
O dia começou com o som seco das botas ecoando pelo corredor estreito da base. Aquele ritmo cadenciado se aproximava, pesado, como se cada passo trouxesse um peso que o ar não queria suportar. As luzes fluorescentes piscavam de leve, e o zumbido delas parecia grudar na pele. Eu já sabia que cedo assim, antes do café, não podia ser boa notícia.
Quando a porta se abriu, vi ele — Capitão Darion Kael, conhecido por transformar recrutas inúteis em armas letais. Nunca sorria. Nunca falava mais do que o necessário. Os olhos, de um cinza que parecia roubar cor do mundo, me atravessaram como se medissem cada pedaço de mim.
Tentei entender se tinha ouvido certo. Não tinha ficha para entrar no programa dele. Eu sabia. Sempre fui a distraída, a que olhava para o céu no meio dos exercícios, a que errava o ritmo.
Ele jogou um coldre sobre a mesa. — "Você vai aprender. Não importa como."
O resto da manhã foi um arrasto. Ele ajustava minha postura como se estivesse mexendo em uma máquina defeituosa. Segurou meus ombros para trás, corrigiu a pegada da arma, reclamou da forma como eu respirava. Falava pouco, mas cada palavra parecia um peso sobre mim. E eu, por mais que tentasse, me distraía com as nuvens, com o barulho distante dos geradores, até com uma formiga que passava pela bota dele.
Quando pensei que o dia não podia ficar pior, a sirene cortou o ar. Não era simulação. O som seco de tiros veio do leste, junto com poeira levantando no horizonte. Ele não hesitou — apenas me empurrou a arma de volta.
No começo, minhas mãos tremiam. O primeiro disparo foi hesitante, mas acertou. O segundo, mais firme. No terceiro, algo em mim desligou e ligou ao mesmo tempo — uma clareza estranha tomou conta. Movia-me sem pensar, cada tiro encontrando seu alvo. O barulho deixou de me assustar. O cheiro de pólvora e metal queimado parecia… familiar.
Quando o combate acabou, o campo estava coberto de cascas de munição e silêncio pesado. Eu sentei no chão, abraçando as pernas, tentando desacelerar a respiração. Um arranhão no braço sangrava, mas não doía.
Ele se aproximou devagar, a sombra dele caindo sobre mim. Olhei para cima — e naquele momento percebi que, por trás daquele olhar frio, havia um cálculo.
Darion Kael me observou por alguns segundos antes de dizer, com a voz baixa e firme: — "Atirou sem hesitar. Não é todo mundo que consegue na primeira vez."
Não havia sorriso, nem suavidade. Apenas constatação — e talvez, bem no fundo, um traço raro de aprovação. Eu não sabia se aquilo era um elogio… ou o início do que ele esperava me transformar.